O mito do marxismo como ideologia eurocêntrica

Nota do blog: O marxismo seria uma ideologia branca, que serve sobretudo aos brancos em sua luta pela dominação de todos os demais povos e raças? A principal contradição no mundo seria mesmo entre brancos e não-brancos? Essas questões são levantadas por alguns setores do movimento pan-africanista (especialmente os afrocentrados) e nós trataremos de discorrer sobre, desmistificando alguns pontos e sustentando outros. O seguinte texto foi escrito por Jailson de Souza, dedicado a nossa coluna sobre a questão racial.


I. Introdução

Desde o acirramento da luta pelo reconhecimento dos direitos civis dos negros e contra a segregação racial no USA, até os demais fenômenos históricos que envolviam aparentemente uma luta antagônica entre brancos e negros – ex.: apartheid na África do Sul, a dominação do Haiti pelas forças genocidas da ONU, etc. –, um grande debate focado na questão de raça se iniciou e ganhou amplo espaço entre a intelectualidade negra, sobretudo e iniciando-se no USA, espalhando-se pela África e países majoritariamente afrodescendentes (Brasil principalmente).

Esta pauta, ou seja, a conquista da emancipação do povo preto, desde o seu surgimento, buscou, logicamente, uma força-motriz teórica que lhes desse respostas às perguntas que viam no decorrer da luta negra. Muitos intelectuais negros desenvolveram teorias que correspondessem às demandas imediatas do povo negro, isto é, que correspondessem às questões de identidade, elevação da autoestima de um povo massacrado por séculos de colonialismo, imperialismo, outrora escravidão e cidadania de terceira classe, etc. (i.e., e teoria do pan-africanismo, uma teoria justa de autoconhecimento dos negros como parte da África). Mas o fato é que não é antagônica a luta pela identidade africana e a luta pelo desenvolvimento da humanidade em geral. Ou seja, é totalmente possível, necessário e justo a união da luta pela identidade, igualdade política e social aos negros e a luta pela superação das velhas classes que, no Brasil e na África, ditam as leis do atraso social, político, econômico e também cultural (onde se encaixam inclusive a relações raciais).

Por fim, o texto tratará de pontuar que a luta pelo progresso da sociedade humana (i.e., em ideologia, o marxismo) não é oposto e tampouco alheio aos elementos negros, mas inversamente, ele é “menos branco” do que dão a entender alguns discursos.

II. O marxismo como “ideologia branca”

Há setores do movimento pan-africanista que sugerem a criação de uma teoria afro-centrada (criada, desenvolvida e aplicada pelos negros, exclusivamente) para a solução das penúrias que são submetidos os negros. Ao mesmo tempo, estes setores tratam teorias (ou mesmo ideologias aplicadas e, na prática comprovadas verdadeiras) que surgiram de “mãos brancas” como parte de mais um leque de teorias eurocêntricas, isto é, “ideologias brancas” como “projeto de supremacia branca”. Isso evidencia que tais setores do movimento pan-africanista entendem que:

  1. a principal contradição da sociedade (no caso, a brasileira) é entre o branco e o negro;
  2. a principal contradição a nível mundial é entre brancos e não-brancos (i.e., asiáticos, nativos indígenas, negros, etc.).
  3. o pensamento e ideologia em geral se resumem nas relações raciais, isto é, ideologias brancas e sua oposição seria um pensamento afro-centrado.

O que isso significa? Que estes setores do movimento interpretam que os males da sociedade humana foi obra de mãos brancas – e mesmo os problemas que os brancos enfrentam são nada menos que reflexo de suas próprias ações.

Portanto, o marxismo não atacaria, de acordo com essa visão, os males do problema – que seria a supremacia branca a nível mundial. Logo, não passaria de um projeto de supremacia branca.

III. Luta de raças ou luta de classes?

Inversamente à visão desses setores, a realidade a nós se apresenta de outra maneira: o problema não é o elemento branco, mas as classes sociais. Elas surgem com a propriedade privada e com o surgimento do escravismo (retratado historicamente por sociedades como o Império Romano e a antiga Grécia); de lá pra cá, as formas de organizar a sociedade se transformaram a partir do momento em que as forças de produção se tornavam desenvolvidas em demasia para as relações de produção (formas como se relacionam o trabalhador e o proprietário), o que ocasionara uma época de revolução social e a classe que ascendera ao poder reorganizava a sociedade (do escravismo ao feudalismo, do feudalismo ao capitalismo). Era e continua sendo esse processo que determina todas as relações sociais, inclusive as relações raciais.

O que os setores pan-africanistas já citados chamam de exploração branca aos continentes não-brancos é, mais precisamente, a exploração da burguesia dos países europeus aos povos. A burguesia dos países europeus só passou a explorar outros povos na medida em que lhes tornava necessário, de acordo com seus interesses de classe, ou seja, a necessidade da burguesia europeia de matérias-primas para alavancar a produção industrial. Evidentemente, a dominação dos povos não-brancos não era precisamente uma exploração de todos os brancos aos não-brancos, mas unicamente das classes dirigentes europeias para seus interesses exclusivamente de classe. Ao contrário, a maioria dos brancos nesse mesmo período, isto é, os europeus das classes populares, estavam numa semelhante cadeia de produção e não gozaram dessa exploração. O que ganharam com a dominação da burguesia europeia sobre outros povos? Nada. E ironicamente, para apaziguar a luta de classes dentro de seus países, a burguesia invocava o racismo entre os trabalhadores europeus em relação aos povos dos outros continentes, para apoiarem a agressão colonialista europeia sobre os demais povos.

Como vimos, mesmo a agressão da burguesia europeia aos povos, ou seja, querendo ou não, agressão de um grupo de uma raça sobre outra, não foram por razões supremacistas – isto é, foram por seus interesses de classe. A supremacia surge no decorrer desse processo, como apêndice ideológico e sustentáculo teórico que visava justificar “cientificamente” (com teorias racistas) a dominação da burguesia branca, movida por interesses de classe. Com o fim do colonialismo e o surgimento do imperialismo (capitalismo estrangeiro que domina a vida nacional dos povos do terceiro mundo, época que nos encontramos hoje), a supremacia branca e o racismo ainda se fazem necessários para os interesses de classe da burguesia (hoje, principalmente a burguesia do USA). Por isso, ainda existem e com bastante expressão. Prova cabal disso é que, mesmo um branco que tenha nascido na América Latina é menosprezado pelos Europeus e ianques. Isso é reflexo do racismo (ou no caso do latino americano branco, chauvinismo) como instrumento ideológico da exploração de classe.

IV. O marxismo como ideologia universal

O tópico anterior aborda rapidamente os eventos históricos que iniciaram a opressão dos países europeus e norte-americano aos povos do mundo e, a partir daí, fica-nos evidente que o ponto de vista dos setores supracitados não corresponde à realidade objetiva. Portanto, não, o marxismo não se torna um projeto de supremacia branca por ter surgido na Europa, justamente porque o que determina a ideologia de um indivíduo não é sua raça, mas sua classe – nem todo branco vai desenvolver um pensamento em conformidade com sua raça, mas sim, de acordo com os interesses de sua classe; e se um branco desenvolve um pensamento que soa em conformidade com sua raça, é porque está, em primeiro plano, de acordo com os interesses de sua classe. Se um branco (assim como um negro) reproduz um pensamento supremacista, isto significa que ele é nada mais que um produto do pensamento de massa, isto é, o pensamento que é difundido pela classe dominante porque soa a seus interesses. E somente têm interesse em desenvolver teorias supremacistas as classes interessadas na exploração, isto é, na atual era histórica, somente a burguesia e o latifúndio.

Cartaz chinês em ocasião do apoio do presidente Mao
a luta dos afro-americanos contra a supremacia branca.

O marxismo surge na Europa porque lá, e naquela época somente lá, existira capitalismo e classe operária (século XIX). Foca-se, no início, unicamente na luta da classe operária europeia. Com a revolução na Rússia em 1917, Vladimir Lenin passa a dar atenção especial ao que ele chama de questão colonial, ou seja, puxa a atenção do movimento comunista aos continentes não-brancos. Em 1922, a Internacional Comunista aprova a “Tese sobre a questão negra”, cria-se um comitê negro antiimperialista e em 1930 promove-se um encontro negro em Moscou. Em 1949, explode a revolução chinesa, no país mais populoso do mundo e fora dos limites da Europa, rompendo com séculos de dominação inglesa e japonesa naquele país. Em 1964, Mao Tsetung, comunista chinês, envia um comunicado aos afro-americanos apoiando sua luta, na época, contra a supremacia branca, e nessa mesma época, exila em seu país o primeiro líder afro-americano a defender a resistência armada contra o racismo (Robert Williams), o qual discursa contra a supremacia branca para 1,5 milhão de pessoas em Pequim, com tempo ilimitado e sem censura. Nos anos 60 e 70, uma série de revoluções explodem na África, revoluções dirigidas por comunistas e nacionalistas negros, africanos.

Isso nos elucida de que, não apenas o marxismo não é ideologia branca, como também que ele mesmo, o marxismo, deu muito mais prejuízo aos brancos do que fortaleceu a supremacia. Como poderia servir aos brancos?

V. Conclusão

Concluímos afirmando que não há contradição antagônica alguma entre lutar pela causa da raça, isto é, pela sua autoestima, sua identidade e dignidade, e ao mesmo tempo lutar pelo geral, por todo o povo. Inversamente, ambas as partes se completam. Se completam porque a luta pela dignidade e autoestima de um povo não é completa sem a luta contra as classes dominantes, porque estas que organizam a sociedade e, portanto, determinam em primeira instância todas as relações sociais. Peguemos como exemplo Moçambique, outrora território livre sob o comando de Samora Machel, onde todos trabalhavam para o povo e os negros recuperavam sua autoestima como povo ao mesmo tempo e mutualmente que lutavam contra o latifúndio semifeudal, a grande burguesia e o imperialismo e colonialismo europeus, porque entendiam que o racismo e a supremacia eram reflexos da dominação destas classes. Hoje, décadas depois, com a ofensiva do imperialismo mundial contra as revoluções dos povos oprimidos e do proletariado, todas as penúrias da época colonial estão de volta a Moçambique, com exceção da “representatividade” no cargo de presidente: no passado colonial, um governador branco; no presente como semicolônia, um presidente negro. Conclusão: a luta levada a cabo pelo povo de Moçambique para a elevação da moral do povo africano passou a ser incompleta e insuficiente na medida em que o povo perdeu o Poder para as classes interessadas na exploração.

A realidade nos apresenta de uma maneira objetiva e devemos interpretá-la de uma maneira igualmente objetiva. Saber compreender que a luta pela autoestima e dignidade dos negros não é necessariamente uma luta contra tudo que vêm de mãos brancas, justamente porque não é a raça que determina em primeira instância a sua forma de pensar e agir, é o primeiro passo que o povo preto pode dar rumo à emancipação. O próprio racismo e supremacia branca são pensamentos desenvolvidos de acordo com os interesses de classe do antigo colonialismo europeu, que reflete até os dias de hoje sob sua nova forma, o imperialismo, pesando nos ombros dos povos do terceiro mundo. Igualmente por isso, o marxismo não é um projeto de dominação branca, mas inversamente, faz a sua contribuição para a derrubada da dominação racial na medida em que combateu no passado o colonialismo, e hoje combate o imperialismo e as classes que perpetuam essa dominação.

Esperamos ter esclarecido o assunto.
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