Crítica à teoria do “amor livre”

Nota do blog: Artigo do companheiro Igor Mendes sobre a teoria do “amor livre” e a objetificação das relações sociais e humanas. Publicado no Jornal A Nova Democracia nº 162 (primeira quinzena de dezembro de 2015).


 

Crítica à teoria do “amor livre”

Igor Mendes
(AND nº 162)

Circula na internet um chamado “Manifesto contra o amor neoliberal”. É uma investida contra a pretensamente “libertária” teoria do “amor livre”, e nesse sentido cumpre um papel positivo. Ataca o aspecto mais evidente dessa concepção: a visão consumista que propõe para as relações humanas. Tal Manifesto é, entretanto, inconsequente. Propõe, por exemplo, em vez de amor, a expressão “amar livre”, sem definir exatamente o que quer dizer. Como se mudar o nome de uma coisa fosse equivalente a mudar a coisa mesma. De todo modo, aproveito a oportunidade para opinar nesse debate, tão caro, principalmente para a juventude, sem qualquer pretensão de esgotá-lo em tão poucas linhas.

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O “LIVRE COMÉRCIO” NO ÂMBITO DAS RELAÇÕES HUMANAS

Há um setor pretensamente radical, e pretensamente revolucionário, para o qual não é a luta de classes o motor da história, mas o sexo. A linha demarcatória entre ideologias, políticas e pessoas, segundo essa concepção, passa pela forma como vivem a sexualidade, pela forma como conduzem suas relações amorosas. Como normalmente agem aqueles que não reconhecem autoridade alguma, incluindo a autoridade das massas trabalhadoras, desqualificam, com o maior autoritarismo possível, todos os que divergem de sua concepção de mundo.

“Libertem-se os corpos, e libertada estará a Humanidade”, bradam seus partidários mais radicais. Aprenderam com Foucault que não se pode tomar o poder político, afinal, poder é “tudo” — ou nada. Negam as grandes transformações revolucionárias, e negam ao proletariado o direito de atuar por cima: indicam-lhe que se resigne a agir “de baixo”.

A teoria do “amor livre” não é nova, mas fez moda no atual contexto de financeirização de todas as relações sociais, consumismo e individualismo exacerbados, desumanização crescente da vida. Marx, a quem recorreremos mais de uma vez, já dizia que o capitalismo não se resume a produzir mercadorias para consumidores, ele também produz — aí o papel da ideologia dominante e seus aparatos de difusão — consumidores para mercadorias1. Devemos buscar a interpretação das tendências relacionadas a comportamento, estética, estilo de vida etc., dentro da dinâmica da luta de classes, portanto, e não fora dela. Aqui, como em todos os domínios, tem um marxista a obrigação de indagar: a quem serve?

Essa “teoria” não representa nenhuma ruptura com o status quo, como se vê. Mesmo porque a monogamia jamais existiu de fato numa sociedade patriarcal como a nossa, ela existiu até hoje, somente, para a mulher. Para o homem sempre existiram os bordéis, as “amantes”, a conivência com o estupro. Não por acaso, muitos dos que apregoam o chamado “amor livre” também mistificam uma das formais mais brutais, e odiosas, da opressão sexual: a prostituição. Argumentam: se alguém quiser “livremente” alugar seu corpo, que mal tem? Isso me lembra um poema que diz, muito felizmente, que quando as correntes forem quebradas mesmo os escravos com elas acostumadas serão obrigados a ser livres 2.

SEXO: FENÔMENO NATURAL OU SOCIAL?

Encarar o sexo como um mero “impulso natural”, tal como pregava a tristemente famosa teoria do copo de água, rebaixa os seres humanos à condição de animais. Porque, afinal, na Humanidade, mesmo o que é natural é mediado pela sociedade. Uma caverna e uma construção de tijolos servem, ambas, como abrigo, mas não é aceitável no século XXI que uns vivam naquelas e outros nessas. Um cão também ouvirá o som de uma música, mas não saberá distinguir nela o significado, a história, a qual ritmo se filia, etc. Pregar o “sexo pelo sexo” como sinônimo de liberdade é, em verdade, subverter um ato humano num ato animal (coito). E seguir convertendo os corpos, sobretudo o feminino, como sempre se fez, num mero objeto.

Ressaltemos, aliás, que não há o amor em geral, ou o ódio em geral, ou a moral em geral, mas sim que cada época, e dentro de cada época cada classe, amará de um jeito, por motivações diversas3. Os grandes líderes populares são profundamente amados pelas massas, e pelos mesmos gestos intensamente odiados pelos seus opressores. Também nesse sentido só podemos falar em liberdade de modo relativo: efetivamente amamos — porque vivemos  — como mulheres e homens de nosso tempo4.

Nasce o amor com a consciência, produto mais complexo da evolução da matéria, distinguindo radicalmente nossa espécie de todas as demais. O Homem é um ser social, político, é por isso também um ser que ama (e odeia).

QUAL AMOR PARA QUAL FIM?

Uma vez vinculado à luta comum pela transformação social pode o amor atuar como elemento genuinamente libertador. Isso é evidente quando impulsiona, por exemplo, contestação a estratificações e preconceitos cristalizados socialmente. Que seria da causa revolucionária se nos militantes o sentimento de ódio implacável aos opressores não se fizesse acompanhar do amor infinito pelas massas? Poderíamos nos sacrificar apenas por uma idéia justa, se não existisse junto dela a paixão5?

Amor egoísta, individual, “neoliberal”, para satisfazer as necessidades individuais?

Ou amor-camaradagem, como chamou Kollontai, que não nasce de um instante fugaz, porque isso é impossível, mas do convívio, da experiência, dos erros, que se preocupa mais com o outro do que com si mesmo?

Cada um é livre para escolher o que melhor lhe convém. Desde que não brinque com a palavra liberdade.


 

1. “O objeto de arte — e analogamente, qualquer outro produto — cria um público sensível à arte e capaz de fruição estética. Deste modo, a produção não cria só um objeto para o sujeito; cria também um sujeito para o objeto”. Karl Marx, “Introdução à contribuição para a crítica da economia política”.

 2.“Não ficar de joelhos, que não é racional renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas”. Carlos Marighella, “Rondó da Liberdade”.

 3.“A paixão do amor não pode pretender o interesse de um desenvolvimento interior, posto que não pode ser construída a priori, e seu desenvolvimento é um desenvolvimento real que se desenvolve no mundo sensível e entre indivíduos reais”. K. Marx e F. Engels, “A Sagrada Família”.

 4.“Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como encontraram. A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos”. K. Marx, “O 18 Brumário de Luis Bonaparte”.

 5.“A paixão é o esforço das faculdades do homem para atingirem seu objetivo”. K. Marx, “Manuscritos econômico-filosóficos”.

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Um comentário sobre “Crítica à teoria do “amor livre”

  1. Esse texto é uma grande confirmação de que as pessoas são capazes das mais diversas formas de leitura de um conteúdo qualquer. Sinceramente discordo de quase tudo o que está escrito, ‘Amor Livre’ como “financeirização de todas as relações sociais”, não sei que tipo de círculos sociais você frequenta ou onde se informou sobre Amor Livre, mas quase todas as pessoas que tive contato, ou os textos que li, faziam a questão de conscientizar todos sobre a luta de classes e a desconstrução da propriedade privada, além de trazerem a tona a discussão sobre o empoderamento de mulheres e a desconstrução do preconceito sobre o prazer feminino (porque os homens, como você mesmo disse, sempre tiveram liberdade sexual). Além de tratar como o casamento, como instituição social que visa a posse, por parte do homem sobre a mulher e depois sobre os filhos, e que visa também a manutenção do individualismo, o individualismo não está presente na libertação das relações sexuais, mas nessa coisa que chamamos de família que nos induz socialmente a nos preocuparmos apenas com umas poucas pessoas. O Amor Livre é contra a propriedade, a exploração e o moralismo, sinceramente cara, você não entendeu nada.

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