A África e a africanização

Nota do blog: O seguinte texto foi publicado originalmente em AND nº 10 (junho de 2003), de autoria de José Maria Oliveira, trazendo brevemente acerca das revoluções africanas do século passado, a ação desgraçada do revisionismo por sabotá-las e todo o contexto.


 

A África e a africanização

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O resultado das centenárias pilhagens promovidas na África, particularmente a subsaariana, pelos tradicionais colonizadores europeus e agora, também, pelas corporações ianques, é o prosseguimento dos mais terríveis genocídios entre as inúmeras nações africanas.

A imprensa do imperialismo tem procurado ocultar ou confundir a opinião pública internacional sobre os reais atores e classes que têm o poder de oprimir e explorar a força de trabalho e pilhar os recursos naturais do solo e subsolo africano. Esses monopólios de comunicação tudo explicam com base na fusão das teorias da reação e do revisionismo. Buscam justificar a guerra dos Estados que necessitam exportar seus capitais e dominar os povos que vivem em riquíssimas e imensas extensões de terra. As guerras de destruição promovidas pelo imperialismo contra as nações africanas, segundo as corporações que controlam os meios de comunicação no mundo, nada mais são que conflitos entre nações civilizadas e tribos ignorantes — “povos incultos” e “selvagens” submetidos a uma “natural e crescente pobreza”.

Países como Etiópia, Angola, Burundi, Chade, República do Congo, República Democrática do Congo, Libéria, Serra Leoa, Ruanda, Somália, Sudão, Costa do Marfim, Quênia, Nigéria, Uganda, Marrocos, etc., pagam com milhões de vidas humanas o ideal de sua independência. Na primeira quinzena de maio, Casablanca, a capital econômica do Marrocos, foi palco de cinco ataques suicidas atribuídos aos muçulmanos, nos quais morreram 39 pessoas e feriram outras 60. O “governo” do Marrocos figura entre os países que cederam todo o seu território para que o USA e a França possam realizar a exploração do petróleo.

PARA QUE NOS MANDARAM A ONU E AS ONGS?

A enorme pressão do onipresente pensamento oficial na ONU é exercida fundamentalmente pelo USA. Milhões de vidas humanas, mormente africanas, poderiam ter sido salvas se resoluções fundadas nos princípios acordados nas Conferências de Yalta (Criméia), Teerã e Potsdan não fossem fragorosamente traídas pelos imperialistas, que transformaram a ONU numa casa homologatória das quadrilhas que dominam o capital financeiro.

“Nada se move nessa organização sem o consentimento dos ianques” disse o insuspeito Inocêncio Arias, embaixador da Espanha na ONU.

O movimento africano revelou serem as massas
— os milhões e milhões que genuina e sinceramente
se unem em torno de uma linha revolucionária —
verdadeira muralha de ferro

Além da ONU, surgem as Ongs, instituições criadas pelos ianques para substituir a representatividade democrática nos fóruns internacionais e nacionais, e destinadas a executar as políticas macabras do imperialismo e da federação das Ongs ianques — denominadas Interação que controlam as demais, como as Direitos africanos, Sentinela africano, Comitê americano para refugiados, etc., — que têm exercido papel preponderante na política de exploração e de genocídios por todo o continente africano.

As potências imperialistas ainda não conseguiram exaurir todo o tesouro existente no rico continente africano. Minerais até pouco tempo parcialmente desprezados, de repente, passam a ser altamente valorizados, como por exemplo, o cobalto, imprescindível na construção da telefonia celular. Campos petrolíferos, diuturnamente são descobertos nas suas ricas entranhas.

Importantes companhias transnacionais, diretamente ou através das Ongs, manipulam as corruptas oligarquias nativas “dominantes”, saqueiam os recursos africanos, enquanto os meios de comunicação de massas são acionados para apresentar a imagem de criminosos como “líderes africanos emergentes e libertadores”.

QUATRO FATOS MARCANTES NA HISTÓRIA DA LIBERTAÇÃO

Primeiro fato: A chegada dos europeus à África. Principalmente à África subsaariana, a partir de 1482, com o português Diogo Cão, seguida pela mais feroz dominação e saqueio que se estenderam por séculos.

Segundo fato: A Conferência de Berlim, em 1884/85. Em consequência das transformações operadas no interior do capitalismo, na segunda metade do século XIX — encerrando sua fase competitiva e entrando na etapa monopolista — 14 nações colonialistas européias se reuniram para “harmonizar” seus interesses colonialistas sobre o mundo e tomaram as seguintes resoluções:

  1. uma nova repartição da África entre os europeus;
  2. “doar” o Estado Livre do Congo ao rei Leopoldo da Bélgica;
  3. expandir a penetração de várias nações na China;
  4. entregar a Índia à Inglaterra como colônia exclusiva.

Terceiro fato: As “guerras de libertação nacional” por toda a África. Após a Segunda Guerra Mundial se juntaram três vertentes básicas de idéias que iriam influir decisivamente no combate dos africanos à política colonial:

  1. a tradicional cultura africana de revolta juntou, dia a dia, cada gota de suor, cada gota de sangue para a unidade de ação, consequência inevitável dos séculos de humilhação, opressão, exploração e barbárie;
  2. o pensamento político antifascista produzido nas mentes e nos corações dos africanos é revelado a partir da Segunda Guerra Mundial;
  3. a doutrina do proletariado revolucionário que durante a guerra alcançou vitoriosamente a África, no pós-guerra é habilmente levada a cabo por Stálin, que forneceu treinamento militar e armas aos revolucionários para acelerar o processo de libertação nacional dos povos africanos e pôr fim à condição de “quintal da Europa”, ou seja, da África fornecedora compulsória das necessidades européias.

A conjuminação desses fatores fez surgir pelo continente novos líderes que ganharam, à época, grande projeção internacional — Ben Barca no Marrocos,Ben Bella na Argélia, Amílcar Cabral na Guiné e Cabo Verde, Agostinho Neto em Angola, Samora Machel em Moçambique, Patrice Lumumba no Congo, Aman Andon e Mengistu Hailé na Etiópia, etc. — e os colocaram na crista dos poderosos movimentos de independência nacional.

Mesmo com a chegada de Kruschov traidor ao poder na URSS promovendo o retorno ao capitalismo, esses movimentos conseguiram se manter por toda a década de 60, empurrando os países que exploravam a África para fora de seu território. As lideranças tinham reconstituído a afirmação nacional e a certeza de que podiam expulsar os colonizadores, desde que possuíssem três grandes instrumentos: o núcleo ideológico, o exército popular e a política de frente única. Tal como o presidente Mao Tsetung havia mostrado aos chineses durante a guerra de libertação na China, o movimento africano também revelou serem as massas — os milhões e milhões de homens que genuína e sinceramente se unem em torno de uma linha verdadeiramente revolucionária — verdadeira muralha de ferro.

Quarto fato: O XX Congresso do PCUS, em 1956. A política revisionista de Krushov dos “Dois Todos” (partido e governo de todo o povo) e das “Três Pacíficas” transição, coexistência e emulação pacíficas), ardilosamente imposta no XX Congresso do PCUS, levou à trágica extinção da URSS. A política de pugna e conluio simultâneos conseguiu mascarar, por algum tempo, o caráter do apoio aos movimentos de libertação nos países africanos, aniquilar seus líderes e substituí-los por impostores, o que deu ensejo à revitalização do semicolonialismo — caracterizado, por exemplo, na “libertação” da Costa do Marfim pela atitude oportunista do “presidente” Felix Boigny que, preparando a traição aos seus camaradas, declarava: “Não dizemos adeus à França, mas até logo.”

Sob a direção das novas lideranças, foi realizada em 1955 a importante Conferência de Bandsung, Indonésia, onde 29 países decidiram lutar por independência, já iniciada com a guerra da Argélia contra os franceses, e a rebelião dos Mau-Mau, no Quênia, contra os ingleses, em 1952. Depois, em 1963, foi proclamada a Carta Africana na Organização da Unidade Africana, reconhecendo que apenas decisões radicais levariam à vitória os movimentos de libertação. Em Dar Es Salaam, o Comitê de Libertação Africana foi criado para coordenar a assistência financeira e o treinamento militar dos combatentes.

A TRAIÇÃO E A VOLTA DOS SAQUES

Com a chegada dos novos atores ao poder, surgiram redes criminosas internacionais (companhias aparentemente respeitáveis), que passaram a estabelecer um laço entre a oligarquia africana dominante com traficantes de todos os tipos, inclusive os de drogas pesadas: a máfia russa, Ongs, corporações de contrabandistas, organismos humanos, etc. — que exercem sua presença no panorama econômico e político da África, como no passado fizeram o tráfico negreiro e a colonização. Atualmente França e USA travam na África Central uma luta sangrenta (evidentemente o sangue é africano) para continuar a apropriação da força de trabalho escrava e semiescrava e o controle algumas áreas de importância estratégica.

A história colonial da França e de empresas como as Air France, Elf, Vivendi, etc., condicionam sua presença militar na África. O financiamento e a assessoria de forças às falsas guerrilhas na Costa do Marfim, na República Centro Africana, bem como aos massacres de 2,5 milhões de hutus em 1994, e o de 300 mil tutsis em 1996 em Ruanda, aquilatam claramente o caráter da sua política colonialista na região. Segundo o Ministério de Defesa francês, na África estão acantonadas tropas que somam 9 mil soldados, (2.700 em Djibuti, 800 no Chade, 1.200 no Senegal, 800 no Gabão e 3.500 na Costa do Marfim).

A pretensão do USA de dominar o mundo e o potencial petrolífero africano não deixam a África imune à sua ambição. Ela exporta atualmente 4 milhões de barris por dia — mais que Venezuela, Irã e México juntos. O Departamento de Estado vêm preparando terreno: Collin Powell visitou, em 2002, o Gabão; o general Carlton Fulford, o centurião que comanda o exército ianque na Europa, visitou São Tomé no ano passado para estabelecer uma área exclusiva de influência do dólar, semelhante à Alca, no continente Sul-americano; 75% da produção petrolífera de Angola estão controladas pela Chevron americana. É claro que existem outros interesses de menor importância, como a bauxita, o cobalto, o ouro, o diamante, etc.

O principal alvo de disputa entre USA e França está situado no “Chifre da África”: o pequeno país Djibuti, onde hoje são mantidos mais de mil militares ianques e 3.500 franceses. Foi dali que, em novembro de 2002, partiu o míssil que matou seis presumíveis membros da Al Qaeda, no Iêmen. Essa importante po sição estratégica faz com que a França mantenha sua maior base militar no estrangeiro, Camp Lenoine, forma de controlar o trânsito da quarta parte da produção mundial de petróleo.

Mas, adiantando-se à França, o secretário de defesa ianque, Donald Rumsfeld, já prenunciou: “Dentro de 2 a 4 anos, as instalações militares americanas estarão prontas ali!”

Um desses países, Marrocos, tornou-se uma expressão viva de como são guiados os interesses semicoloniais. Ambas as potências apóiam a política de massacre do povo feita pelo rei Hassan II no Saara Ocidental. Em troca, as empresas francesas e ianques possuem licenças, concedidas de forma ilegal, para explorarem as ricas jazidas de fosfato e de ferro no Saara.

As massas populares africanas não se encontram passivas,
a exemplo da época em que apenas podiam contar
com armas rudimentares para se defender dos invasores

Enquanto o FMI, o BM, a OMC, e a ONU, “ajudam” as nações africanas a se endividarem sempre mais e bases militares francesas, inglesas e americanas são construídas, a OUA (Organização da Unidade Africana) é substituída pela UA (União Africana). A primeira em nada agradava aos neocolonialistas; a segunda é submissa às regras impostas pela União Européia e pela ONU.

A união dessas redes criminosas, nativas e internacionais, assegura o prolongamento e o surgimento das guerras africanas e são uma demonstração de como a classe dominante interna da África tem preparado politicamente a desordem em seu benefício. No entanto, as massas populares africanas não se encontram passivas, a exemplo da época em que apenas podiam contar com armas rudimentares para se defender dos invasores, período em que lutavam pela sobrevivência. E sobreviveram.

Os africanos perceberam que jamais foram gente inferior, como diziam os colonizadores. Agora, querem de volta aquela riqueza que lhes roubaram, muitas delas expostas nos ricos museus e coleções privadas da Europa.

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