“Carta de afastamento do PCR”, de Manoel Coelho Raposo.

Nota do blog: O que segue é uma carta escrita pelo grande e histórico comunista brasileiro Manoel Coelho Raposo em despedida do PCR revisionista. Sua crítica segue sendo o principal documento para desmascarar esse partido que, se apropriando do histórico líder comunista Manoel Lisboa, manobra no mais cretino revisionismo.


 

Carta de afastamento do PCR

Manoel Coelho Raposo

Já fazem mais de 2 anos que existem divergências minhas com algumas questões que norteiam a linha programática do PCR, fundamentalmente com a prática do Partido que se distancia da conduta que deve prevalecer em um partido revolucionário. Entretanto, jamais descumpri com o centralismo-democrático, mesmo amargando o fato de ter que levar a prática certas resoluções tiradas sem minha participação ou voto. Jamais procurei companheiros para formar frações ou grupos, apesar de não ter tido a oportunidade de, com liberdade e tempo necessário, defender minhas ideias.

De maneira oposta, todo comportamento do PCR em relação a mim, é o de contrapor ações grosseiras e contrarrevolucionárias às minhas modestas intervenções no cenário político. Contra isso tenho levantado a voz e procurado fazer ver ao Partido o erro político que pratica em relação às minhas divergências, pois adotaram um comportamento aético de disputas pessoais e golpes traiçoeiros, tão comuns no PCdoB, PT e em todos os partidos burgueses.

1) Teoria e Prática

Na fundamentação do materialismo histórico e dialético, Karl Marx dizia que para conhecer a essência de uma época, assim como a essência de um homem, devia-se estudar a prática social deste homem e não os conceitos que este se faz de si mesmo.

Desta concepção materialista, Lênin sistematizou afirmando que a prática é o único critério da verdade. Da mesma maneira, para saber se um partido é ou não revolucionário é preciso analisar a sua prática e não os adjetivos que a si mesmo se imputa. Constar o nome revolucionário em um estatuto ou programa não transforma ninguém, nem nenhuma organização, em revolucionários. Para ser revolucionário é preciso ter uma linha revolucionária que se confirma na prática, pois a prática social é a base sobre a qual se erige uma linha política revolucionária. Um dos métodos mais antigos do oportunismo, é esconder por detrás de uma fraseologia de esquerda sua prática direitista e reformista. Enfim, agitar bandeiras vermelhas para atrair incautos, principalmente jovens, é confundi-los numa prática que, ao fim e ao cabo, é contrária às suas aspirações.

Esta é a conclusão inevitável da análise materialista que faço da prática do PCR. Sua direção procura, inutilmente, ocultar o oportunismo com palavras de ordem radicais de “Viva a Revolução Socialista”. Falam em Revolução Socialista e apoiam os Pinheiros e Lulas nas eleições; falam que são a “Vanguarda” e o “Estado-Maior” do proletariado e tem uma relação promíscua de alianças com trotsquistas e revisionistas, atuando muitas vezes a reboque do PCdoB e do PT. Transformam a atuação no movimento de massas na briga sem princípios por cargos e estruturas. E aí vale tudo para se conseguir um diretorzinho da UNE, vale até mesmo estar na mesma chapa do PCdoB, MR-8 e PMDB! A defesa do camarada Stálin não passa de verniz para ocultar a velha prática, mas com o tempo, mesmo o verniz se desgasta e até no discurso o direitismo fica exposto, como ficou claro no entusiasmo da direção do PCR com a vitória de Lula nas eleições.

2) O eleitoralismo e o entusiasmo com a vitória do PT

Há muito tempo a prática do PCR tem sido eleitoreira. Por mais que a direção negue esta verdade. Dizem que devemos participar porque é um momento de atividade política das massas, e que, portanto, não devemos nos abster. Nunca propus nos abster. Nunca propus abster-nos do debate político, e sim participar ativamente do processo eleitoral para denunciar esta farsa burguesa pseudo-democrática. O que vemos na prática tem sido a condução de aliados para o parlamento burguês e a difusão entre as massas de que as eleições possam transformar a sociedade e a vida do povo.

Esta atitude oportunista ficou ainda mais evidente nas últimas eleições presidenciais. Foi deveras constrangedor para mim, ouvir um proeminente dirigente do PCR, após a vitória de Lula, afirmar que esta foi uma demonstração do alto nível de consciência política do povo brasileiro. Na realidade, o que aconteceu, foi uma dramática demonstração de misticismo do povo na sua desesperada luta em busca de um salvador.

3) O cupulismo e o abandono do trabalho de base

Como consequência do eleitoralismo surge a prática deformadora do PCR nos movimentos de massa, restringindo a sua ação à disputa de cargos de direção nas organizações sindicais e estudantis. Esta prática cupulista conduziu o PCR a abandonar o trabalho de base. Nos movimentos estudantis relegou-se a segundo plano a aproximação do Partido nos centros acadêmicos; no movimento sindical, o desprezo pela formação dos conselhos de fábrica e de locais de trabalho, etc. Esta prática, deveras carreirista, muito se assemelha às do PCdoB, PT, PFL, PMDB, PSDB, etc.

4) O movimento camponês e a hegemonia do proletariado

O PCR, em seu programa, defende a revolução brasileira, isto é, a revolução socialista, cuja hegemonia pertence ao proletariado. Estou de pleno acordo; apenas destaco, que entre a linha programática e a prática existe uma enorme distância. Falar simplesmente da hegemonia do proletariado na revolução socialista é falar o óbvio. A hegemonia do processo revolucionário no Brasil terá que ser do proletariado independentemente da vontade do PCR. O grande problema para a realização da revolução socialista é exatamente o de como construir e consolidar esta hegemonia. Como se dará esta hegemonia foge à compreensão do PCR, em consequência de sua falta de visão política da realidade brasileira.

O Brasil é um país continental, com um capitalismo relativamente desenvolvido, implantado principalmente nas cidades. Todo o sistema administrativo da burguesia está estruturado nas cidades. Além desse fator, a principal parte do aparato repressivo do Estado é montado pela burguesia nos centros urbanos: polícias, exército, aeronáutica, marinha e serviços de informação. As cidades são portanto, onde o poder repressor da burguesia se encontra mais fortalecido.

O fato de ser o proletariado a hegemonia da revolução brasileira e da construção socialista, não significa que os grandes confrontos se deem primeiramente nas cidades. Os confrontos iniciais da revolução se darão, necessariamente no campo, porque é aí que o poder da burguesia é mais fraco. Isso significa que o problema da revolução socialista e da hegemonia do proletariado no Brasil, passa primeiramente pela solução da questão da aliança operário-camponesa. Mas como será possível ganhar os camponeses para a revolução? Somente apresentando um programa que contemple suas reivindicações e mobilizando-os para uma revolução agrária que destrua o latifúndio.

Levantar a bandeira por reforma agrária medida absolutamente burguesa e não por uma revolução agrária, é reforçar o jogo da burguesia, é reforçar a burguesia no campo, é atrasar a revolução agrária, consequentemente, atrasar a transformação da sociedade brasileira rumo à construção do socialismo.

A hegemonia do proletariado se dará fazendo-se com que a classe operária produza quadros conscientes, que estes se desloquem para o campo e assumam a liderança dos camponeses. Será, portanto, desta maneira, que se firmará, na prática, a aliança operário-camponesa. Como afirmou o camarada Manoel Lisboa em sua Carta de 12 pontos: Por isso que o Partido da Classe Operária deve elaborar sua estratégica e aplicá-lo onde se reflete de modo mais agudo a contradição principal. Aí se desenvolver, com profundidade, a Aliança Operário-Camponesa, através do deslocamento para o campo dos elementos mais avançados da classe operária, dos intelectuais e estudantes com ideologia do proletariado, para criar a base de apoio rural.

Dentro dessa perspectiva não nego, nem poderia fazê-lo, a necessidade dos movimentos de massa nas cidades, sem os quais tornar-se-ia impossível a revolução socialista.

5) III Guerra Mundial

Minhas concepções sobre a inevitabilidade da III Guerra Mundial, inevitabilidade defendida pelo PCR e por quase todos os PC’s do mundo, tem sido distorcidas ou mal interpretadas. Defendo que após a II Guerra, na impossibilidade de o imperialismo desencadear a III Guerra Mundial, em virtude do surgimento do Campo Socialista, das lutas de libertação nacional dos povos da Ásia, África e América Latina, e da bipolaridade atômica, as diversas nações imperialistas (7 Grandes mais a Rússia) viram-se na contingência de buscarem uma nova conformação econômica. Surge a maior corrida dos vários monopólios de diferentes países buscando a ampliação das fusões de seus capitais, o que transformou a contradição interimperialista em uma contradição potências imperialistas versus nações subdesenvolvidas e em desenvolvimento, a nível mundial, na principal contradição do mundo hoje. O chamado “neoliberalismo” procura fazer com que as nações oprimidas voltem a ser novamente meras fornecedoras de matérias-primas.

Nesse intuito se unificaram as velhas potências imperialistas. Mas o imperialismo precisa das guerras para sobreviver, portanto semeia guerras de rapina por todo o globo. Cabe aos povos do mundo contrapor à guerra injusta de dominação, a sua guerra justa de libertação. É dentro desta linha de raciocínio que ouso contestar a tese da inevitabilidade da III Guerra Mundial entre as 7 grandes nações imperialistas, mais a Rússia.

Ademais, faço eco com a concepção marxista de que o processo de libertação das nações subdesenvolvidas e em desenvolvimento rumo a construção do socialismo, provocará, inevitavelmente, a convulsão social dentro das próprias nações imperialistas. Cada país oprimido que se libertar da dominação imperialista, reduzirá o mercado de consumo desta nação imperialista, levando-a às crises de recessão e desemprego, abrindo-se a perspectiva de convulsões sociais internas.

6) Quem será a vanguarda do proletariado brasileiro?

No artigo 1º do estatuto do PCR sua direção afirma ser a Vanguarda e o Estado-Maior do proletariado. Por coincidência esta mesma afirmação é feita pelo PCdoB, PCB e PCML, sem falar dos muitos grupos trotsquistas. Mas quem será, então, a vanguarda de nosso proletariado? Como resolver tal questão? Afirmar isso em um estatuto é a maneira mais pedante, simplista e menos séria de resolver o principal problema da revolução brasileira, isto é, da construção da vanguarda comunista. Só a luta de classes definirá quem é a vanguarda do proletariado, só a prática definirá que organização estará a altura de cumprir tão importante tarefa. Será a vanguarda, o Partido que desencadear e conduzir a revolução e a construção do socialismo no Brasil.

A maneira academicista de resolver a principal questão da revolução brasileira é também uma prática oportunista; há que lutar todos os dias para ser a vanguarda; dar como resolvido este problema é desarmar a militância, é dar status indevido aos dirigentes. É fácil compreender que hoje no Brasil estão maduras as condições objetivas da revolução; miséria, fome e desemprego para o povo e cada vez mais dificuldade para as classes dominantes continuarem governando; o que falta são justamente, as condições subjetivas, fundamentalmente, um verdadeiro Partido Comunista, organizado e capaz de guiar as massas para a revolução.

Se o PCR é a vanguarda do proletariado, estaria resolvido o problema das condições subjetivas da revolução. Resta a pergunta: o que o PCR está esperando para desencadear a revolução em nosso país? A resposta é óbvia, o PCR não pode autoproclamar-se de A Vanguarda. No máximo poderia dizer: somos uma força revolucionária em luta para nos transformar na Vanguarda do proletariado no Processo da Revolução Brasileira.

É preciso pensar seriamente nisto; os verdadeiros revolucionários tem que se preparar muito para estarem a altura de dirigir a gloriosa classe operária brasileira. É necessário forjar um Partido Comunista como o Partido Bolchevique, composto por quadros altamente disciplinados, teoricamente capazes, decididos e dispostos a enfrentar todas as peripécias da revolução. Um Partido, como definiu Lênin, construído para a conquista do poder, que não tenha ilusões reformistas, nem aceite as migalhas da burguesia. Um partido de conjurados sem a mínima ilusão com a legalidade e a liberdade oferecidas pela burguesia. O próprio programa do PCR em sua pág. 85, citando Lênin, em o “O que fazer?” diz: “Dei-nos uma organização de revolucionários e revolucionaremos o mundo (sic) [a Rússia]”. E na pág. 84 também citando Lênin em “O que fazer?”: “Necessariamente esta organização não deve ser muito extensa, e é preciso que seja o mais clandestina possível.” Este não é o comportamento do PCR.

Concluo, dirigindo-me particularmente aos camaradas do PCR. A despedida que faço desta CARTA DE AFASTAMENTO, jamais se caracterizará como rompimento com a luta que travo pela construção do socialismo em nossa Pátria. As divergências políticas, teóricas e ideológicas que nos separam, podem preparar o caminho de nosso reencontro, mais tarde, através da agudeza da luta revolucionária dos operários e dos camponeses em particular, dos índios, dos estudantes e do povo brasileiro em geral, na formação de uma grande Frente Revolucionária de Libertação dos Trabalhadores Brasileiros do jugo do capitalismo.
Estou consciente que a minha idade avançada e minhas deficiências físicas, não me permitirão uma existência longa. Entretanto, antes que o meu corpo tombe, espero deixar vivo o meu pensamento político, e, se o tempo confirmar a justeza de minhas teses, encontrar-nos-emos no abraço da luta difícil, porém gloriosa, a luta pela construção do socialismo, superando e destruindo a odiosa era da exploração do homem pelo homem.

Devo proclamar, através desta carta, a minha admiração pelos camaradas jovens do PCR, jovens cheios de entusiasmo e de desprendimento revolucionário. Ao lerem esta carta, tenho certeza autosubmeter-se-ão à profundos momentos de meditação que os levarão a busca crítica e da autocrítica do PCR, no que tange a prática oportunista que desenvolve, e, fundamentalmente, compreenderão a causa que gerou o meu pedido de afastamento.

Daqui para frente pretendo aprofundar os meus conhecimentos teóricos, e, movendo-me dentro de uma prática verdadeiramente revolucionária, sentir-me-ei mais a vontade e mais seguro para concluir os livros que venho anunciando.
Pessoalmente, dentro das condições que me forem possíveis, compartilharei, sempre que for procurado, ao lado dos companheiros em seus momentos de dúvida e busca de soluções para os intrincados caminhos da REVOLUÇÃO SOCIALISTA EM NOSSA PÁTRIA.

Nesta carta, não me proponho aprofundar o caráter da revolução brasileira, muito menos no que diz respeito as questões táticas e estratégicas que envolve a Aliança Operário Camponesa. Dada a complexidade do assunto, reservo-me a fazê-lo noutra oportunidade.

Também não me julgo dono absoluto da verdade. Daí porque submeto as teses que apresento nesta CARTA DE AFASTAMENTO, ao debate de todos os comunistas honestos e preocupados com a construção do socialismo no Brasil.

Fortaleza, Junho de 2004

Manoel Coelho Raposo

Permissão:

Permito aos Partidos, Movimentos Comunistas e aos Militantes de esquerda, a publicação desta carta, desde que seja feita rigorosamente na íntegra.

O autor.

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