Esboço bibliográfico: Karl Marx (V.I. Lenin, 1914)

Por ocasião dos 200 anos do nosso grande fundador, Karl Marx – Proletários de todos os países, uni-vos!

Trecho extraído da publicação “Karl Marx”, de 1914, do grande Lenin. Repartimos essa importantíssima obra e vamos publicando-as por parte.


V. I. Lenin
Novembro de 1914

Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818, em Treves (Prússia Renana). Seu pai, advogado israelita, converteu-se, em 1824, ao protestantismo. Sua família, abastada e culta, não era revolucionária. Terminando os estudos no Liceu de Treves, Marx entrou para a Universidade de Bonn, indo depois para Berlim, onde estudou direito e, sobretudo, história e filosofia. Em 1841, terminava os seus estudos, sustentando uma tese de doutorado sobre a filosofia de Epicuro. Eram, então, as concepções de Marx as de um hegeliano idealista. Fez parte, em Berlim, do círculo dos “hegelianos de esquerda” (Bruno Bauer e outros), que procuravam extrair da filosofia de Hegel conclusões ateias e revolucionárias.

Saindo da Universidade, Marx fixou-se em Bonn, onde contava com uma cadeira de professor. Mas a política reacionária do mesmo governo que, em 1832, afastara Ludwig Feuerbach de sua cátedra, e que, em 1836, recusava o seu retorno à Universidade, e ainda, em 1841, proibia ao jovem professor Bruno Bauer realizar conferencias em Bonn, obrigou a Marx a renunciar à carreira universitária. Nessa época, o desenvolvimento das idéias hegelianas de esquerda estava em franco progresso na Alemanha. Particularmente, a partir de 1836, começou Ludwig Feuerbach a criticar a teologia e a se orientar para o materialismo que, em 1841, já aceitava inteiramente, como se verifica em a A essência do cristianismo; em 1843, eram publicados os seus Princípios da Filosofia do Futuro.

“É preciso ter experimentado em si mesmo a ação libertadora deste livro. Nós, isto é, os hegelianos de esquerda, inclusive Marx, fomos todos, em dado momento, “feuerbachianos”.

Nessa época, os burgueses radicais da Renania, que tinham certos pontos de contacto com os hegelianos de esquerda, fundaram, em Colônia, um jornal de oposição, a Gazeta Renana, que apareceu a partir de 1.° de janeiro de 1842. Marx e Bruno Bauer foram os seus principais colaboradores e, em outubro de 1842, Marx tornou-se o seu redator-chefe, mudando-se então de Bonn para Colônia.

Sob a direção de Marx, a tendência democrático-revolucionária acentuou-se cada vez mais e, em consequência, o governo submeteu o jornal a uma dupla e mesmo tripla censura, chegando a ordenar a sua suspensão definitiva a partir de 1.° de abril de 1843. Marx viu-se, então, obrigado a abandonar seu posto de redator, mas isso não foi suficiente para salvar o jornal, que se viu obrigado a desaparecer em março do mesmo ano. Entre os artigos publicados por Marx na Gazeta Renana, Engels cita um a respeito das condições dos viticultores do vale de Mosela. Suas atividades de jornalista, bastaram para mostrar a Marx que os seus conhecimentos de Economia Política eram insuficientes, levando-o a estudá-la com ardor.

Em 1843, Marx desposou, em Kreuznach, Jenny von Westphalen, que já era sua conhecida desde criança e com a qual já se havia comprometido desde o seu tempo de estudante. Sua esposa pertencia a uma família nobre e reacionária da Prússia. O irmão mais velho de Jenny foi Ministro do Interior, na Prússia, em uma das épocas mais reacionárias, de 1850 a 1858. No outono de 1843, Marx foi a Paris para editar uma revista radical ao lado de Arnold Ruge (1802-1880), hegeliano de esquerda, aprisionado de 1825 a 1830, emigrado depois de 1848 e partidário de Bismarck de 1866 a 1870. Mas apareceu somente o primeiro número desta revista intitulada Os Anais Franco-Alemães. Foi suspensa, devido à dificuldade de sua difusão clandestina na Alemanha e das divergências com Ruge. Nos artigos de Marx, publicados na revista, ele já nos aparece como um revolucionário que proclama “a crítica implacável de tudo o que existe” e, em particular “a crítica das armas” e apela às massas e ao proletariado.

Em setembro de 1844, Frederico Engels veio a Paris por alguns dias e tornou-se o amigo mais íntimo de Marx. Tiveram ambos a parte mais ativa na vida agitada dos grupos revolucionários da época, em Paris. A doutrina mais importante era a de Proudhon com que Marx acertou contas, categoricamente, na A Miséria da Filosofia, publicada em 1847. Numa luta cerrada contra as diversas doutrinas do socialismo pequeno-burguês, Marx e Engels elaboraram a teoria e a tática do socialismo proletário revolucionário, ou o comunismo (marxismo). Em 1845, por exigência do governo prussiano Marx foi expulso de Paris como revolucionário perigoso. Seguiu para Bruxelas. Na primavera de 1847, Marx e Engels filiaram-se a uma sociedade secreta de propaganda, a Liga dos Comunistas e tomaram parte preponderante no 2.° Congresso desta Liga em Londres, novembro de 1847. A pedido do Congresso, redigiram o imortal Manifesto do Partido Comunistapublicado em fevereiro de 1848 Esta obra expõe, com clareza e precisão geniais, a nova concepção do mundo, o materialismo consequente, que abrange também o domínio da vida social, a dialética apresentada como a ciência mais vasta e mais profunda da evolução, a teoria da luta de classes e do papel revolucionário, histórico, mundial, do proletariado, criador de uma sociedade nova, a sociedade comunista.

Deflagrada a revolução de fevereiro de 1848, Marx foi expulso da Bélgica. Regressou a Paris, de onde saiu depois da revolução de março, para voltar à Alemanha e se fixar em Colônia. Foi aí que apareceu, de 1º de junho de 1848 a 19 de maio de 1849, a Nova Gazeta Renana da qual foi redator-chefe. A nova teoria foi brilhantemente confirmada pelo curso dos acontecimentos revolucionários de 1848-1849, e, em seguida, por todos os movimentos proletários e democráticos em todos os países do mundo. A contra-revolução vitoriosa vingou-se de Marx, tendo ele sido detido em 9 de fevereiro de 1849 e expulso, em 16 de maio do mesmo ano, da Alemanha. O mesmo aconteceu em Paris, de onde foi igualmente expulso, depois da manifestação de 13 de junho. Partiu então para Londres, onde viveu até o fim de seus dias.

As condições dessa sua vida de emigrado eram extremamente penosas, como o revela, com uma clareza particular, a correspondência entre Marx e Engels, editada em 1913. Marx e sua família viviam literalmente esmagados pela miséria; sem o apoio constante e devotado de EngelsMarx não só não teria podido completar O Capitalcomo ainda teria sucumbido à miséria. Sem dúvida, as doutrinas e as correntes predominantes do socialismo pequeno-burguês, do socialismo não proletário em geral, obrigavam Marx a manter uma luta implacável, incessante, que chegava ás vezes aos ataques pessoais mais furiosos e mais absurdos Herr Vogt. Mantendo-se á margem dos círculos de emigrados, Marx elaborou, numa série de trabalhos históricos, sua teoria materialista, aplicada sobretudo à economia política.

A época do recrudescimento dos movimentos democráticos, do fim da década 1850-1860, chamou Marx ao trabalho prático. Foi, em 28 de setembro de 1864 que se fundou, em Londres, a Primeira Internacional, a Associação Internacional dos Trabalhadores. Marx foi a alma, e igualmente o autor de seu primeiro apelo e de um grande número de resoluções, declarações e manifestos. Agrupando o movimento operário de diversos países, procurando orientar, pela via comum da atividade, as diferentes formas do socialismo não proletário, pré-marxista (MazziniProudhonBakunine, o trade-unionismo liberal inglês, as oscilações para a direita dos lassallianos, na Alemanha, etc), combatendo as teorias de todas as seitas e escolas, Marx forjou uma tática única para a luta proletária da classe operária nos diferentes países. Depois da queda da Comuna de Paris (1871), sobre a qual Marx na Guerra Civil em Françase pronunciou em termos tão penetrantes, felizes e brilhantes, como revolucionário e como homem de ação, e depois da cisão da Internacional, por obra dos bakuninistas, ela não pôde subsistir na Europa. Em seguida ao Congresso de 1872, em Haia, Marx conseguiu a transferência do Conselho Geral para Nova York. A Iª Internacional tinha cumprido sua missão histórica e cedia lugar a uma época de desenvolvimento incomparável do movimento operário em todos os países — época de seu desenvolvimento em amplitude, com a formação de partidos operários socialistas de massa, nos limites dos diversos Estados Nacionais.

A intensa atividade na Internacional e seus trabalhos teóricos, que lhe exigiam esforços ainda maiores, afetaram a saúde de Marx. Continuou sua obra de transformação da economia política e a finalização de O Capitalacumulando num volume quantidade imensa de documentos novos e estudando várias línguas (o russo, por exemplo). Mas a moléstia o impediu de terminar esse seu livro.

Em 2 de dezembro de 1881, faleceu sua esposa. Em 14 de março de 1883, morreu placidamente em sua poltrona. Foi enterrado, com sua mulher e sua devotada empregada, Helena Demuth, que se tinha tornado quase que um membro da família, no Cemitério de Highgate, em Londres.

 

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