Equador: As Mulheres e a aliança operário-camponesa (Movimento Feminino Popular , 2018)

Nota do blog: Publicamos, ainda em celebração ao Dia Internacional da Mulher Proletária, o discurso do MFP do Equador proferido em ato numa comunidade camponesa do norte do país.

Tradução não-oficial de original retirado de fdlp-ec.blogspot.com.


Discurso da companheira representante do MFP na base norte do Comitê Popular Camponês.

Em sociedades como a nossa, semicolonial e semifeudal, o papel que nós mulheres proletárias e camponesas cumprimos é fundamental nessa histórica tarefa por nos libertarmos de todas as formas de dominação, exploração e opressão a que estamos submetidas.

É importante reconhecer que as formas de exploração, opressão e violência exercidas sobre a mulher camponesa geram uma série de contradições que não podem ser resolvidas pelo Estado ou pelos distintos governos de turno.

Somos exploradas pelo simples fato de sermos mulheres. Por considerarem que temos menos força que o homem para realizar as tarefas no campo nos pagam salários cerca de 30% mais baixos comparado ao de nossos companheiros, e, mais baixos ainda se são meninas, 50% menores, apesar de cumprirem exatamente as mesmas atividades com enxada, picareta, pá e facão.


No campo não temos direitos, a não ser que os conquistemos. Nossa jornada diária inicia às 4h da manhã e, à duras penas, termina às 9h da noite. Não temos voz e também somos exploradas por nossos pais, esposos e companheiros que, por costume, nos outorgam tarefas e jornadas de trabalho extenuantes no cuidado do lar, criação dos filhos, cuidado dos animais menores, transportando lenha e água de longas distâncias, ajudas nas tarefas agrícolas como apoio na busca e corte de madeira, no campo ou na mina, sem assistência médica, má nutrição e, porque não dizer, agredidas fisicamente por nossos esposos ou pais que reproduzem culturalmente essa subjugação brutal.

Mas também somos exploradas como camponesas, submetidas a um regime feudal e semifeudal profundo, que ainda subsiste em nossa sociedade, sobretudo no campo.

Trabalhamos em condições muito duras e difíceis. Sem ferramentas, mal alimentadas, permanentemente assediadas pelos intermediários. Nossos horários de trabalho não são respeitados e nos fazem cumprir outras atividades como empregadas domésticas de nossos patrões, cuidado de seus filhos ou qualquer outra atividade sem relação com a função para qual fomos contratadas e pagas, ou seja, nos empurram para uma servidão forçada, e no caso de algumas companheiras, uma servidão voluntária produto da cultura, do costume.

Acompanhamos nossos esposos no trabalho na terra em troca de um pedaço dela para poder viver. Acaso isso não é feudalidade? Vivemos em propriedades que não nos pertencem, ali levantamos nossos casebres de madeira, nós lavamos, passamos e cozinhamos para o patrão, os homens trabalham na terra, não nos pagam, e se o fazem é insignificante, nossa verdadeira renda para consumo provém do pouco que tiramos da venda daquilo que produzimos no pequeno terreno que o dono da terra nos empresta.

De igual modo, nossos companheiros, nós, nossos filhos se somam as fazendas ou terras que nos convidam para trabalhar sob a modalidade de “al partir”, onde toda nossa família trabalha duro; às vezes, dividimos com o dono da terra metade dos gastos com semente, fungicidas, e quando tiramos a semeadura, repartimos o produto meio a meio, se assim foi acordado. Geralmente o dono da terra fornece o transporte porque ele tem veículo, então nos cobra e terminamos capturando muito pouco do produzido. Se isso não é exploração, o que é?

Da mesma forma, companheiras, quando somos abandonadas ou viúvas trabalhamos igual aos homens, arrendando terras ou novamente voltando ao regime de “al partir”, com a diferença de que ali envolvemos nossas famílias, filhos, pais, irmãos.

Se pertencemos a uma etnia ou minoria nacional, somos oprimidas e discriminadas como tal. Quer dizer, se somos negras nos discriminam, se somos indígenas ou mestiças também, e desde cedo, nossa carga se torna cada vez mais pesada. Somos negras putas ou índias sujas. Ainda assim os servimos. Ainda assim nos exploram. Ainda assim precisam de nós.

Se somos meninas estamos submetidas ao risco de sermos enviadas para trabalhar nas casas dos empregadores, dos donos da fazenda. Ali nos dizem que somos como filhas, mas nos fazem dormir em espaços reduzidos, não nos permitem utilizar os mesmos pratos que eles, têm asco de nós, nos dão de comer as sobras, nos maltratam, não nos permitem estudar porque dizem que vamos engravidar na escola ou na faculdade mas, se somos violadas sexualmente pelos filhos dos empregadores ou por eles, e ficamos grávidas nos fazem abortar e nos mandam de volta para o campo. Já não somos exploradas em condições feudais senão como escravas do século XXI.

Companheiras, vocês sabem que no campo os camponeses morrem por doenças raras que acredita-se já não existirem em nossa sociedade?

Tuberculose, tétano, malária, leishmaniose, pneumonia, desnutrição, câncer pelo uso de químicos nas grandes fazendas onde não nos dão proteção adequada; mulheres que morrem parindo, filhos que nascem com doenças raras, cegos, outros com lábios leporinos, sem poder caminhar, poliomielite. Que nossos filhos morrem de disenteria pelas difíceis condições de salubridade e higiene; doenças respiratórias, pneumonia, etc.

Companheiras, isso é um pouco do muito que vivemos diariamente. Então quero lhes fazer uma pergunta: devemos festejar algo em nossa qualidade de mulheres, de camponesas, de companheiras, de indígenas ou negras? Certamente não.

É importante que vocês recriem tudo isto, para entender que pouco ou nada é o que temos que festejar hoje. No entanto, é muito sobre o que devemos tomar consciência para nos comprometermos mais na mudança de nossa sociedade. Pois é nada menos que difícil que estas coisas mudem se não eliminamos a semifeudalidade, que vem sempre acompanhada do uso da religião e da cultura para nos manter nessas condições. Mudanças que não podem ser realizadas pelas autoridades, pelo Estado, muito menos se ficarmos sentadas sob o sol esperando um milagre divino.

Se não formos nós junto a nossos companheiros que mudamos pela força este sistema burguês, latifundiário, submetido ao imperialismo ianque principalmente, ninguém nos dará direitos e liberdades, muito menos, uma sociedade que seja digna para as proletárias, para nós, as camponesas, para nosso povo.

Não podemos seguir acreditando que os politiqueiros, a assembleia, o presidente ou as eleições evitarão que a exploração continue fazendo de nós suas vítimas.

É inevitável pensar, companheiras, ante o exposto, que não há lugar para as flores, para a diversão, para essas tontas ideias de igualdade e equidade que muitas companheiras citam sem darem conta de que a exploração e a opressão respondem a um modelo concreto de sociedade e que se não a mudamos todo o resto fica como um discurso oco e insultante.

Hoje, como ontem e como amanhã, o que queremos é fortalecer nossas organizações camponesas, fortalecer nossos mecanismos de luta para que nossos esposos e companheiros mudem, que não nos agridam, que nossos patrões não nos explorem e que nossa cor de pele não seja importante. Pois o que verdadeiramente conta é o lugar que temos na produção, ou seja, se temos ou não a terra em nossas mãos, o lugar que ocupamos na sociedade, se estamos ou não ao lado do povo ou se, apesar de sermos pobres, estamos ao lado dos latifundiários e dos grandes burgueses. Mas igualmente conta se suportamos toda essa humilhação, agressão, opressão e exploração com a cabeça baixa, submissas, reverentes, ou se nos atrevemos a ser esse trovão da montanha disposto a queimar todo o velho para devolver a luz da manhã em uma nova sociedade. Isso é importante e vocês devem assumir posição, e é importante que o façam já, agora, enquanto vamos construindo nossa organização e as condições que favoreçam a mudança violenta da sociedade.

Companheiras, que este 8 de março tenha um novo significado para vocês, que vejam em nós, que nós também nos vemos em vocês, não débeis mas sim fortes, não submissas mas sim lutadoras, não conciliadoras e sim rebeldes, não contentes com o que vivemos mas sim dispostas a lutar por uma nova sociedade, uma Nova Democracia, onde abriremos a luta ao socialismo e posteriormente ao comunismo.

Para as companheiras que não são camponesas mas proletárias, vocês, companheiras, têm em suas mãos a grande responsabilidade de conduzir o processo de libertação e emancipação da mulher camponesa. Por que? Porque têm a ideologia mais avançada, a do proletariado, e isso é luz, é amanhecer, é guia. Nós estamos dispostas a segui-las, a nos submetermos a seu projeto guia que, sabemos, eliminará ao final do caminho toda forma de exploração e opressão, onde nossos filhos sejam os filhos de todos, dos muitos, do coletivo.

Como camponesa, mas acima de tudo como militante do Movimento Feminino Popular, só me resta saudar este dia. Não como de qualquer mulher, porque para aquelas mulheres que nos enganam, que nos exploram na fazenda, nas grandes empresas, nos partidos políticos, na assembleia, no governo, para estas nosso mais profundo ódio e desprezo. Mas para vocês, as operárias, as camponesas, as que lutam junto a seus maridos para levar o pão para casa, para as que lutam sozinhas para não caírem na miséria, para a mulher consciente, combativa, lutadora e revolucionária, o maior dos reconhecimentos.

Antes de terminar companheiras, nosso mais profundo carinho e reconhecimento às heroínas do povo, para as mulheres trabalhadoras que se levantaram em armas para conquistar seus direitos, nossos direitos, mas sobretudo por haverem entregue suas vidas pela conquista do poder para o proletariado, o campesinato e demais povo explorado. Assim, rememoro a Lorenza Abimañay e sua luta camponesa no país, a camarada Nora, do Partido Comunista do Peru, uma verdadeira filha da guerra popular e da conquista do poder; a camarada Sandra Lima, do Movimento Feminino Popular do Brasil, indômita mulher. Indômitas mulheres que vivem em nossas lutas, em nossos triunfos e que desde já têm um lugar em nossa memória histórica pela conquista do poder, único cenário em que nossa emancipação será uma realidade.

VIVA A MULHER TRABALHADORA, EXPLORADA E OPRIMIDA!

VIVA A MULHER REBELDE, REVOLUCIONÁRIA E COMUNISTA!

VIVA A DIREÇÃO PROLETÁRIA DE LUTA CAMPONESA!

VIVA A ALIANÇA OPERÁRIO-CAMPONESA!

VIVA O MOVIMENTO FEMININO POPULAR!

VIVA O MARXISMO-LENINISMO-MAOISMO!

HONRA E GLÓRIA A COMPANHEIRA LORENZA ABIMAÑAY!

HONRA E GLÓRIA A CAMARADA NORA!

HONRA E GLÓRIA A CAMARADA SANDRA!

 

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