Mariátegui sobre o niilismo, ceticismo e a fé revolucionária (1925)

Nota do blog: Nestes ensaios, o grande dirigente comunista peruano, fundador do PCP e um dos maiores marxistas da América Latina – José Carlos Mariátegui – combate, numa linguagem poética, a concepção de mundo burguesa e pequeno-burguesa. Partindo da análise dos efeitos da primeira guerra mundial imperialista, Mariátegui demonstra a caducidade da sociedade burguesa e de seus mitos. Após a guerra, diz ele, “o viver docemente” da burguesia, alimentado no pré-guerra – no desenvolvimento relativamente pacífico do capitalismo, nas palavras de Lenin, após o fim da revolução burguesa mundial e antes do início da revolução proletária mundial – foi quebrado, despedaçado, não mais atingível. O mundo sacudido por grandes tormentas, guerras, revoluções impede sua realização. O fascismo, analisa, é uma resposta de parte da burguesia, temente ante os bolcheviques, os comunistas. Fascismo que é uma “tese extravagante” demais para a velha burguesia, que quer derrotar a revolução parlamentarmente, “com bons modos, se possível”. Mas a democracia burguesa, assim como todo o mundo espiritual da burguesia, seu “viver docemente”, já não corresponde.

Em contraponto, desenvolve-se a nova humanidade – a “humanidade da alegria” nas palavras do Presidente Gonzalo.O proletariado e os comunistas são movidos por um mito – uma “fé religiosa” na revolução, nas massas; fé assentada numa ciência e na verdade universal do marxismo, mas, ainda assim, uma fé, uma paixão e um ímpeto revolucionários – e, por isso, derrubarão os velhos mitos, “julgaram a obra dos revolucionários do século dezoito”, levantam novos mitos. Mariátegui argumenta: o homem, em tempos como este, precisa de um mito para mover-se, para crer. A burguesia está incrédula, perdeu seus mitos da revolução burguesa, está cética, niilista, só sabe duvidar e não se sai do lugar, moribunda; o proletariado está com seus mitos em plena vitalidade, pulsando, suas massas têm fé e paixão, creem na humanidade, no futuro, na revolução, têm uma certeza. O caráter “religioso” do marxismo para os comunistas e proletários, ou seja, sua fé e certeza absoluta nessa sua grande razão de existir, é onde reside a força dos revolucionários. Estão dispostos a, nas palavras de Mariátegui, “viver perigosamente” para alcançar seus mitos, para travar sua luta final. O homem letrado, diz, frequentemente busca sempre ter certeza de tudo para mover-se, como se fosse possível, e caem na dúvida estéreo, paralisante, e definham no niilismo; o homem não letrado, as massas, têm fé e movem-se e, por isso, frequentemente “alcançam seu caminho” antes daqueles. O homem simples, proletário, “não ambiciona mais do que pode e deve ambicionar todo homem: cumprir bem sua jornada”.


A alma matinal

A emoção de nosso tempo

Duas concepções da vida[1]

A guerra mundial não modificou nem fraturou somente a economia e a política do Ocidente. Ela modificou ou fraturou, também, sua mentalidade e seu espírito. As consequências econômicas, definidas e precisadas por John Maynard Keynes, não são mais evidentes nem mais sensíveis que as consequências espirituais e psicológicas. Os políticos, os estadistas encontrarão, talvez, através de uma série de experimentos, uma fórmula e um método para resolver as primeiras; mas não encontrarão, seguramente, uma teoria e uma prática adequada para anular as segundas. Mais provável me parece que devam acomodar seus programas à pressão da atmosfera espiritual, a cuja influência seu trabalho não pode subtrair. O que diferencia os homens desta época não é tão pouco só a doutrina, mas sobretudo o sentimento. Duas opostas concepções da vida, uma pré-bélica, outra pós-bélica, impedem a inteligência de homens que, aparentemente, servem ao mesmo interesse histórico. Eis aqui o conflito central da crise contemporânea.

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