Entrevista com GN Saibaba, vice-presidente da Frente Democrática Revolucionária da Índia (Il Manifesto, 2010)

Nota do blog: Publicamos a seguir entrevista concedida por GN Saibaba em 2010, para o periódico italiano Il Manifesto, por meio da jornalista Geraldina Colotti. O publicamos como parte da campanha pela libertação imediata e incondicional deste importante intelectual e democrata indiano, preso hoje acusado de vinculo com o Partido Comunista da Índia (Maoista), que lá dirige uma guerra popular prolongada pela conquista do Poder em todo o país.


Entrevista com GN Saibaba,
vice-presidente da Frente Democrática Revolucionária da Índia

1)Você pode me dar algumas informações biográficas e profissionais sobre você? Qual é o seu papel político atual? Você vive e trabalha no Estado de Andhra Pradesh?

Resposta: Comecei minha militância social nos meus tempos de estudante, a partir de 1989. Eu estava associado a um movimento estudantil revolucionário chamado União dos Estudantes Radicais – (UER) – que se originou, em 1980, no Estado de Andhra Pradesh. Este grupo estudantil mobilizou centenas de milhares de estudantes em todas as questões sociais e políticas pertinentes aos estudantes e instituições educacionais. Foi ela que lançou o histórico chamamento aos estudantes para “Ir para Aldeias”. Esta chamada realmente revolucionou os espaços urbanos em Andhra Pradesh. Esta organização foi proibida pelo governo em 1991. Inúmeros líderes estudantis revolucionários foram mortos a sangue frio pelas autoridades policiais ou pelas forças armadas do Estado. Mais tarde comecei a trabalhar em uma organização anti-imperialista, formada em toda Índia, chamada Fórum de Resistência de Todos os Povos da Índia – (FRTPI). Esta organização anti-imperialista trabalhava para mobilizar centenas de milhares de pessoas em todo o país, em grandes comícios e manifestações contra o Projeto Dunkel, contra a OMC, contra as mortes por suicídio de agricultores, contra as guerras imperialistas e todas as outras principais políticas pró-imperialista dos governantes indianos. O FRTPI, em 2005, se fundiu com outras organizações semelhantes para formar a Frente Democrática Revolucionária – (FDR). É uma federação de organizações de pessoas revolucionárias como operários, camponeses, jovens, estudantes, mulheres e  organizações culturais revolucionárias em 13 estados da Índia. Na maioria dos estados, seus membros e principais funcionários foram detidos e encarcerados. Centenas de seus funcionários ou sofrem nas prisões ou trabalham de várias maneiras. Mas ela ainda funciona vigorosamente entre as pessoas. Seus membros estão sendo marcados como tendo ligações com o PCI (Maoísta) apenas porque também acreditam na transformação revolucionária da sociedade indiana. Entretanto a esmagadora maioria do subcontinente também acredita.

Atualmente, nossa organização está envolvida na mobilização das vozes democráticas contra a grande ofensiva militar que o Governo da Índia (GOI) lançou contra a população indígena do país, chamada de Operação Caçada Verde – (OCV).

Eu sou um professor adjunto de Literatura na Universidade de Delhi. Eu, originalmente, venho de Andhra Pradesh, mas na última década eu estou em Nova Delhi.

2) Quais são as atividades da Frente Democrática Revolucionária da Índia?

Resposta: Essa frente, como já foi mencionado acima, é uma federação de organizações de massas revolucionárias trabalhando a nível das bases. Embora cada uma das organizações constituintes trabalhe os problemas existentes entre os vários setores da sociedade para revolucioná-los conforme o entendimento da Revolução de Nova Democracia – (RND), a Frente se concentra em grandes questões políticas relativas a todas essas partes ao nível de estado e país.

A FDR entende que a RND é o estágio da democratização da sociedade, quebrando os grilhões feudais e imperialistas. Isto também implica aumentar a consciência das pessoas que são mantidas em atraso pelo reacionário regime semifeudal, semicolonial e social que surgiu a partir de 200 anos de domínio colonial e que continua com a pilhagem imperialista. A FDR acredita que a mobilização de militantes das classes básicas do povo é a única maneira de democratizar o subcontinente sul-asiático. Ela também se envolve na construção e na participação nas grandes Frentes Únicas de diferentes forças democráticas e antiimperialistas no país.

3) O que você acha da guerrilha naxalita? Você pode me dizer em que bases e contexto o movimento naxalita é capaz de se preparar para um período tão longo?

Resposta: O movimento naxalita surgiu no final dos anos 1960 como uma resposta ao Estado mais opressor, semifeudal, semicolonial que já foi implantado aqui após a transferência do poder dos colonialistas britânicos para as  classes dominantes compradora e feudais indianas. O movimento naxalita também deve ser visto como um processo que mudou definitivamente o cenário político dos movimentos dos povos, definindo e estabelecendo o caminho da revolução indiana. A palavra Naxalita veio do nome da aldeia onde os primeiros passos para a mobilização armada foram dados sob a liderança de Charu Mazumdar. Em maio de 1967, uma aldeia chamada Naxalbari, no distrito de Jalpaiguri de Bengala do Norte, se rebelou. Ao mesmo tempo, sob a liderança de Kanai Chatterjee, os camponeses pobres e os povos indígenas-tribais na fronteira dos estados de Bengala/ Bihar começaram a se organizar. Nesta região também se desenvolveu um poderoso movimento revolucionário. Este evento pioneiro é também o início da polarização entre as forças revolucionárias, de um lado, e as forças revisionistas do outro, entre os partidos comunistas e grupos que existiam até então em toda a Índia. É por isso que foi chamado de Trovão da Primavera. Tão logo a revolta dos camponeses tribais do norte de Bengala abalou o mundo, ela fez as centelhas de Naxalbari propagarem o fogo da revolução na pradaria em cerca de 600 regiões da Índia. A natureza do movimento comunista na Índia mudou completamente com a ascensão da luta revolucionária camponesa Naxalbari. Os revolucionários indianos, pela primeira vez, compreendiam a natureza da revolução indiana. Os revolucionários começaram a organizar os setores mais oprimidos dos trabalhadores rurais – os sem-terra e camponeses pobres – que no contexto indiano significou os dalits e os adivasis do vasto campo do interior. A FDR trabalha entre os setores mais amplos das massas difundindo a mensagem revolucionária.

Desde a rebelião de Naxalbari, os mais pobres entre os pobres vieram participar no centro do movimento  popular na Índia. Com o Estado respondendo ao movimento de forma brutal, a guerra popular prolongada começou a tomar raízes profundas entre as massas oprimidas que deram o grito de revolta em meio a uma repressão  brutal. Desse processo surgiu a guerrilha Naxalita, o símbolo do Exército Popular Revolucionário.

A trajetória do desenvolvimento do movimento revolucionário na Índia tem muitos contornos. Enquanto o final dos anos sessenta foi o período do surgimento do movimento revolucionário, a década de setenta viu várias divisões entre as forças revolucionárias. Depois a década de oitenta viu o estabelecimento do movimento revolucionário em diferentes áreas, isoladas uma das outras, e a formação de grandes partidos revolucionários e seus crescimentos. A década de noventa testemunhou a união de grandes forças revolucionárias através do desenvolvimento de um entendimento comum por meio da prática concreta pontuada com grandes sacrifícios e trabalho dos operários para a formação de um partido revolucionário de toda Índia. Do ano de 2000 em diante podemos ver os frutos desse processo, que criou uma poderosa corrente revolucionária organizando os mais pobres dos pobres como uma força formidável ante o Estado. É verdade que esse processo foi longo e o caminho foi tortuoso. O movimento que foi capaz de se consolidar e crescer ao longo das últimas quatro décadas lutou intransigentemente em demoradas batalhas contra o revisionismo e o neocolonialismo.

4) Segundo o ministro do Interior, o Partido Maoísta controla mais de 200 distritos. É verdade? Em que esse tal controle consiste? Existem áreas liberadas como aconteceu no Nepal durante a resistência armada?
Resposta: O ministro do Interior, o Sr. Chidambaram exagera a extensão do movimento, com vista a demonizá-lo. No entanto, é fato que o movimento revolucionário, sem dúvida, cresceu em vastas regiões do centro e leste da Índia, com uma forte influência em várias outras regiões, incluindo os espaços urbanos. O PCI (Maoísta) nunca declarou quaisquer bases liberadas. Mas, em áreas como Dandakaranya, as massas revolucionárias estabeleceram seus próprios governos locais destruindo o regime reacionário. Eles criaram seus próprios instrumentos de autogoverno com uma economia auto-suficiente e um modelo de desenvolvimento centrado nas pessoas. Existem algumas semelhanças que se pode constatar entre o povo nepalês, no decurso do seu desenvolvimento revolucionário, com o que está acontecendo em Dandakaranya, Orissa, Jharkhand e Bengala Ocidental, na Índia. Mas cada um dos países tem suas próprias especificidades no avançar no sentido de alcançar a transformação social revolucionária.

5) O governo indiano lançou a Operação Caçada Verde, mas disse que ela não pretende utilizar a mesma ferocidade como foi feito no Sri Lanka contra os Tigres Tamil. Como as coisas estão realmente? É verdade que o governo deu aos chefes das aldeias centenas de telefones celulares para fazê-los denunciar os guerrilheiros? Será que isso funciona?

Resposta: Na verdade, a OCV é inspirada pelo sucesso da guerra genocida sobre as minorias nacionais Tamil do Sri Lanka. O mesmo modelo agora está sendo implementado pelo governo indiano, pelo qual já se mobilizou mais de 250.000 soldados armados, apoiados por aviões de combate contra o povo do país. Atualmente, logo depois que o governo de Manmohan Singh foi levado novamente ao poder, em maio de 2009, o Sr. Chidambaram falou de uma campanha militar igual à guerra do Sri Lanka, a ser travada nas regiões mais atrasadas do subcontinente indiano. A guerra genocida contra os Tamils do Sri Lanka foi travada pelo regime Rajapaksa com a ajuda das classes dirigentes chinesas. Agora, a guerra genocida perpetrada sobre os mais pobres entre os pobres na Índia tem a ajuda dos imperialistas do USA, que prestam apoio logístico e até mesmo fazem parte da elaboração dos planos desenhados para esta guerra. As intenções são claras. Esta guerra genocida é travada para quebrar a resistência do povo indiano que não está permitindo o saque de seu habitat natural para os super lucros das corporações imperialistas.

De fato, o teatro da guerra do Sri Lanka tornou-se um pomo de discórdia entre os imperialistas e seus lacaios no Sul da Ásia. O USA quer o seu pé fincado na ilha para ter o mando geoestratégico no Oceano Índico. O eixo China-Rússia com o Paquistão, como cúmplice do USA, queria estar na campanha militar de tal forma que na reconstrução do pós-guerra da China teria o direito de reconstruir o porto estratégico de Trincomalee. O desejo dos militares do Estado indiano fazerem parte deste genocídio era natural. O papel ativo do governo indiano, apesar de togar o segundo violino para o USA, para suprimir o movimento nacional Tamil no Sri Lanka, não é totalmente conhecido no mundo exterior. O conselheiro de segurança nacional da Índia e vários altos funcionários voaram para o Sri Lanka para a coordenação da guerra Rajapakse contra os Tamils e também apoiaram a guerra com meios materiais. Além disso, também tiveram o papel mais importante ao desviar a enorme população Tamil, na Índia, para canalizar sua energia num simples surto militante de revolta, que poderia ter virado decisivamente a situação no subcontinente. E assim aprendeu muito com o genocídio do Sri Lanka.

O governo indiano criou uma quadrilha de vigilantes fascista chamada Salwa Judum antes do início da OCV. Elementos lumpens, juntamente com as forças armadas até os dentes pelo Estado desencadearam assassinatos em massa nas massas revolucionárias de Dandakaranya desde 2005. Isso foi planejado de acordo com a política americana de Guerra de Baixa Intensidade-(GBI) e “Hamlet Estratégico” que foi experimentado no Vietnã e em outros lugares em 1970. 644 aldeias foram queimadas, desocupadas, com vista a entregar as áreas minerais ricas para inúmeras empresas multinacionais para a exploração, de acordo com os Memorandos de Entendimento (MoE). Enquanto milhares de pessoas eram mortas e torturadas, mulheres eram estupradas, cerca de 70.000 delas foram deslocadas à força para os campos de confinamento do governo com o dinheiro fornecido pelas empresas privadas. Esses fatos surpreendentes, do envolvimento da burguesia compradora da Índia financiando esta campanha assassina desenfreada para facilitar o acesso à terra, à riqueza da floresta, às pérolas, diamantes e minerais, foram reconhecidos em um relatório do governo anterior, que os considerou tão constrangedores que os enterrou! Outras 300.000 pessoas foram obrigadas a migrar para fora desta região, porém houve pessoas que combateram heroicamente o Salwa Judum e em três anos derrotaram esta Guerra de Baixa Intensidade e muitos voltaram para as aldeias. O Salwa Judum foi um completo fracasso. Agora o governo veio com uma guerra direta no lugar da GBI. Isto quando você pode ver que são dadas armas e celulares a grupos de lumpens e gangsters treinados e criados pelo Exército indiano e pelas forças paramilitares auxiliadas por grandes capitalistas.

As classes dominantes indianas vêm travando uma guerra contra o povo da Caxemira e os movimentos de libertação nacional no Nordeste nos últimos sessenta anos. Agora esta guerra se estendeu para a parte central e leste da Índia. Os imperialistas ianques e seus burgueses compradores indianos têm um grande plano para penetrar no Nepal para suprimir o movimento revolucionário lá. Os imperialistas do USA estão fazendo guerras importantes contra os povos do Sul da Ásia, Sudeste Asiático e no Oriente Médio. Fiel à sua natureza, os governantes do subcontinente estão atuando como agentes do USA. O USA ocupou o Afeganistão em 2002, logo após o 11/09 e continuou a guerra contra o povo e agora a expandiu para o Paquistão. Todos os dias várias regiões do Paquistão são bombardeadas nessa chamada Guerra contra o Terror.

De certa forma podemos ver o Sul da Ásia se tornar um grande teatro das guerras imperialistas ao longo do Oriente Médio. A OCV deve ser entendida como parte integrante dessa grande guerra das forças imperialistas mergulhadas em uma crise econômica de sua própria criação, desejosa de um saque muito mais violento dos recursos como a única forma de facilitar a cobiça insaciável do capital moribundo – pelo “lucro máximo”. No entanto, o Sul da Ásia também tem sido o centro da tempestade dos movimentos revolucionários e de libertação  nacional. Isso é muito importante e central para a compreensão do que será a trajetória futura da configuração da resistência do povo.

6) – No Nepal, o Partido Comunista Maoísta, de Prachanda, apoiava as demandas para a independência dos povos nativos. Que parte do programa dos comunistas tem a reivindicação de independência ou identidade naxalita?

Resposta: Não posso representar os maoístas indianos e falar por eles. Eu só posso lhe dizer do que está lá em seus documentos e o que eles falam em domínio público. Nos últimos anos a sua visibilidade no domínio público é particularmente significativa e eles são ouvidos por uma grande parte do povo.

Os Maoístas indianos, desde 1970, têm apoiado uma série de Movimentos de Libertação Nacional. Eles apóiam o povo da Caxemira, os Nagas, o de Manipur, Assamês, Mizos, povos de Meghalaya, e uma série de outros Movimentos de Libertação Nacional para a autodeterminação e independência do jugo e exploração da ocupação indiana. Eles reiteram que seu apoio é incondicional e absoluto. Eles constroem a sua relação com cada um deles o que causa pânico nos governantes indianos.

Os Maoístas na Índia crêem que inúmeras comunidades indígenas possam desenvolver a consciência nacional, particularmente no contexto da exploração neoliberal que os empurrou para perto da extinção. Em tais condições, os povos indígenas, como Jharkhandis, Gonds, o povo de Kamtapur, Gorkhaland e várias outras tribos têm levantado sua bandeira de revolta contra os governantes indianos pela soberania/autonomia/separação/secessão. O PCI (Maoísta) apóia todos esses movimentos e trabalha continuamente para construir o relacionamento com todos eles.

Os povos indígenas da Índia são chamados Adivasis. Eles são os setores mais oprimidos no subcontinente. Muitas das áreas em que o movimento maoísta cresceu em força são áreas habitadas pelos adivasis. É por ser parte dos setores do povo mais explorado, mais oprimido e maltratado que os maoístas têm intensificado a luta de classes no subcontinente.

O PCI (Maoísta) também apóia as lutas dos dalits pelo auto-respeito e dignidade. No degrau mais baixo do sistema de castas indiano estão os dalits que pertencem a diferentes castas intocáveis. Eles não têm quaisquer direitos e muito poucos recursos à sua disposição. Constituem 15 por cento da população indiana. Eles não foram autorizados a ler e escrever por milhares de anos. Foi somente durante o domínio colonial britânico que alguns deles foram autorizados a começar a se educar. Mas a política colonial dos britânicos fez deles seus lacaios entre os governantes Brahminical da casta superior e se tornou fundamental na consolidação do sistema de castas, como parte do complexo processo de produção e reprodução do Estado colonial. Como resultado, ainda hoje, os dalits permanecem predominantemente analfabetos fazendo apenas trabalhos braçais. O PCI (Maoísta) trabalha principalmente entre eles.

7) – Como você considera a posição da Índia no âmbito do imperialismo?

Resposta: A Índia é um importante aliado dos imperialistas, particularmente os imperialistas do USA, desde o princípio. As classes dominantes indianas também foram aliadas do antigo Social-Imperialismo Soviético, mas este aspecto é secundário, um recurso que foi subordinado às necessidades domésticas de reabilitação da esquerda revisionista dos tempos do legado do que é o que podemos ver nos estados de Bengala Ocidental, Tripura, etc. Neste momento, devido às políticas de liberalização, privatização e globalização elas são o principal aliado do imperialismo do USA. Na disputa do jogo de poder geopolítico, o jogo de poder no sul da Ásia, a União Européia, a Rússia e a China não estão no centro. Porém eles são contendores fortes também. O USA está no Centro porque ele emergiu como o principal explorador vitorioso espalhando a guerra, principal instrumento do imperialismo, do Afeganistão ao Paquistão e mais além dele. O USA impingiu um regime fantoche no Afeganistão para lutar contra o povo de lá, isso faz o Paquistão fazer uma guerra contra seu próprio povo e os governantes indianos a travarem uma guerra contra os mais pobres dos pobres do país. Ao mesmo tempo, o USA também está alarmado com o poder econômico crescente da China e com uma Rússia rejuvenescida, ambas com aumento do poderio militar. Essas forças também se tornaram grandes concorrentes no subcontinente, embora o USA ainda esteja tentando desesperadamente manter a sua posição como super-potência econômica indiscutível através da sua agressão militar.A Índia é, e quer ser, o grande tirano, no Sul da Ásia. Ela intervém e procura suprimir todas as nacionalidades e  nações do Sul da Ásia. Isto é o que é chamado Expansionismo Indiano no Sul da Ásia. Algumas forças vêem isso como imperialismo indiano. Na verdade, o Expansionismo Indiano é basicamente controlado e temperado pelo imperialismo norte-americano nesta região continental.

8)- Está o comunismo surgindo novamente apenas entre as massas marginalizadas dos pobres? O que significa o Marxismo-Leninismo-Maoísmo na Índia de hoje?

Resposta: O comunismo, como uma visão futura da humanidade, sofreu um revés na recepção entre os povos do mundo, após a reversão das experiências socialistas soviética e chinesa. Mas, nunca na história, esta visão se tornou invisível; não há alternativa para o progresso humano. Eu entendo isso como parte da luta de classes em escala internacional, devido a que não houve nenhuma parte do globo que permaneceu em isolamento depois que o sistema capitalista de produção, como uma cadeia imperialista, se sobrepôs às sociedades humanas no globo. Quinhentos anos de história do capitalismo é apenas uma pequena parte do desenvolvimento das sociedades humanas. Cada uma das épocas anteriores do desenvolvimento humano teve períodos muito mais longos, com o comprimento de vida gradualmente reduzido, como a sociedade primitiva, o modo escravista e o feudalismo, um após o outro, naturalmente com especificidades próprias em cada região continental do mundo.

O capitalismo tem uma vida mais curta que todas essas épocas, como a próxima época, seja qual for o nome que você queira dar a ela (a comunista) surgiu, como um conceito de forma concreta, pelo menos há 180 anos, com a ascensão do Marxismo, como a verdadeira visão materialista científica que pode vislumbrar o futuro das sociedades humanas. Desde então, as lutas de classes que se travam no mundo todo, entre o capitalismo e o socialismo, se alguém se aventurar a ver, em última análise, é a porta de entrada para o comunismo.

Eu não acho que o comunismo está só crescendo, particularmente entre os pobres e párias, nestes tempos turbulentos do imperialismo agressivo, que também é conhecido, por alguns, como neoliberalismo ou globalização. Há certamente, agora, uma conscientização maior do que nunca entre as populações mais pobres na Índia, isto se pode ousar ler nas escritas das paredes. Mas o comunismo não cessa de atrair as mentes de uma grande variedade de pessoas que caíram sob exploração dos governantes ou que não puderam escapar da violência estrutural da crise do capital moribundo. O comunismo continua a atrair a imaginação de alguns indivíduos, dentre as classes exploradoras, ainda que, inicialmente, como um ideal, na Índia e no mundo.

Na Índia contemporânea, pessoas entre as classes médias constituem uma boa parte que compreendem o comunismo como um objetivo alcançável, e o humanismo liberal burguês como um instrumento palpável para justificar a exploração desenfreada de um punhado de governantes opressivos, em qualquer país. Tudo isso não é otimismo melancólico, mas uma realidade concreta, a quem tiver um olho afiado. Alguém concordará comigo de uma maneira muito mais fácil se eu digo a mesma coisa no caso do Nepal.

A classe operária da Índia fica desorientada quando um partido revisionista trabalha a reboque das classes dominantes reacionárias, mantendo-a em suas garras e se torna responsável por empurrá-la para as forças de direita. Eu não quero dizer que toda a classe operária na Índia está aprisionada nesta situação. A classe operária da Índia está intimamente ligada com a vida do camponês, de um lado, e às depressões do trabalho aristocrático, do outro.

9) – É verdade que mais de 30% dos membros do Partido Maoísta são mulheres? Elas têm papéis importantes na maioria dos órgãos de direção? Como os Maoístas lidam com a questão do gênero?

Resposta: Compreensivelmente o PCI (Maoísta) tem o maior percentual de mulheres em suas fileiras em comparação com qualquer outro partido político no país, incluindo os partidos do governo burguês. Conforme relatórios anunciados pelo PCI (Maoísta), as mulheres constituem 30 por cento dos seus membros. Mas não se sabe por que não há qualquer suspeita sobre a sua declaração, visto que ele é um Partido completamente subterrâneo. De acordo com dados, abertamente disponíveis, em algumas áreas, as mulheres constituem 40-50 por cento dos seus quadros e dirigentes.

Há um bom número de organizações de mulheres que estão, por assim dizer, nas organizações de frente do PCI (Maoista). O Estado indiano está ansioso para rotular todas as organizações de massas como sendo uma organização de frente dos Maoístas. As duas maiores organizações de mulheres com 50.000 ou mais e 100.000 ou mais, membros ativos, respectivamente, são Nari Mukti Sangh (Organização para a Libertação das Mulheres) e Krantikari Adivasi Mahila Sangh (Organização Revolucionária da Mulher Adivasi).

10) – Qual a análise que você tem sobre a política indiana após as últimas eleições?

Resposta: As eleições para o Parlamento indiano (Câmara Baixa, Lok Sabha), foram feitas há quase um ano (abril-maio 2009). A coalizão governista, Aliança Progressista Unida, liderada pelo UPA, Congresso Nacional Indiano, com mudanças significativas de forças dentro dele, voltou ao poder. Mas não há mandato para qualquer partido único ou coalizão que realmente emergiu destas eleições para governar o país.
Com as permutações e combinações do jogo de números, o Congresso conseguiu obter uma maioria simples, enquanto os parlamentares de esquerda foram deixados de fora e mais forças da direita entraram no UPA formando o Governo no Centro.

A eleição na Índia é uma grande farsa, com um gasto enorme de dinheiro mais do que é gasto para esse espetáculo no USA! A direita explícita do partido BJP e seus aliados do NDA permaneceram fora do poder pelo segundo mandato consecutivo, o que criou uma grande ruptura em seu interior. Mas a política antipovo e pró-imperialista de ambas as coligações têm mais semelhanças do que quaisquer diferenças marcantes. Talvez haja apenas um jogo de semântica no que diz respeito às diferenças que existem. Não será exagero dizer que a maioria dos membros de ambas as coligações têm jogado suas diferenças pelo ralo! Se o NDA tivesse chegado ao poder não teria feito quase nenhuma diferença. O genocídio dos mais pobres entre os pobres teria sido o mesmo.

A única diferença é que uma coligação professa aberta e agressivamente a ideologia fascista, a outra faz o mesmo, disfarçadamente. Mas, então, no país o mesmo genocídio continua, com mais e mais adivasis sendo caçados e mortos, os muçulmanos sendo estigmatizados como terroristas e caça às bruxas, os agricultores sendo empurrados para cometerem o suicídio, os jovens continuando sem empregos, abandonados, sem educação e meios de subsistência e a terra e os recursos sendo hipotecados por uma ninharia.
11)O governo indiano deixa correr solto o saque dos recursos naturais, dando origem à resistência das populações nativas, como a Adivasis. Qual é a posição dos naxalitas? Quais as alianças que eles fizeram com as forças que não apóiam a guerrilha?

Resposta: O povo nativo ou os adivasis se tornaram o alvo, assim como seus habitats – suas terras e florestas têm imensa riqueza mineral. Embora a pilhagem de seus recursos tenha sido iniciada de uma forma importante com o advento do domínio colonial britânico e depois os governantes indianos entraram nos corredores do poder em favor dos imperialistas, os novos planos de hoje de quase total pilhagem não podem acontecer sem jogar fora milhões de adivasis do seu habitat natural. Isto se tornou claro um ano atrás, quando o Ministro do Interior, P Chidambaram afirmou, como a mais quixotesca proposta, que nos próximos 20 anos ele quer ver 80 por cento da população do país mudando para as áreas urbanas! Agora, menos de 30 por cento da população vive em áreas urbanas e espaços semi-urbanos na Índia e este processo levou mais de cem anos. Certamente, mascarado neste desejado sonho de pessoas ocupando os espaços urbanos está um frio e calculista plano assassino que, forçosamente, abre os habitats deles para a pior e sempre violenta exploração das riquezas minerais e florestais.

O povo adivasi agora está resistindo sob a liderança dos naxalitas ou Maoístas. Eles resistiram à invasão britânica por 200 anos e nunca permitiram que os colonialistas entrassem em suas regiões. Os adivasis têm uma grande tradição de resistência armada, pelo menos nos últimos 2000 anos. Agora, a resistência se transformou tão formidavelmente que o Governo, utilizando-se de todas as Forças de Segurança, declarou uma guerra contra o povo das partes Central e Oriental da Índia. Os Maoístas e outros partidos Naxalitas estão firmemente decididos a defender os povos indígenas e outros grupos marginalizados nestas regiões e todos os outros lugares que constituem 85 por cento da população indiana. O PCI (Maoísta) escreveu uma carta a todos os partidos revolucionários e indivíduos democráticos, em 10 de setembro de 2009, apelando para resistirem coletivamente à ofensiva militar contra eles e milhões dos povos tribais. Uma série de frentes conjuntas foi criada por toda a Índia nas quais, desde os Gandhianos,  ONGs, Grupos Marxistas-Leninistas até indivíduos, têm protestado contra esta grande ofensiva militar. Alguns líderes de partidos no poder, incluindo a coalizão governista, expressaram a sua preocupação e protestos contra a Operação Caçada Verde. Inúmeras organizações civis e dos direitos humanos protestam contra essa guerra genocida sobre o povo. Pessoas democráticas, acadêmicos, escritores e artistas têm manifestado seus protestos em todo o país.

12)Qual é a sua posição em relação a movimentos, como o dos talibãs, que combatem o governo indiano fundamentando-se sobre o radicalismo islâmico? Você acha que as alianças com base no anti-imperialismo podem ser estabelecidas?

Resposta: Os Talibans e outras mobilizações políticas islâmicas, basicamente, emergiram em cena, em vários países, na ausência de um movimento revolucionário comunista forte, ao nível internacional, e também no meio da exploração intensa e brutal do trabalho, dos recursos de várias regiões do mundo e dos povos pelas forças imperialistas. Embora estas forças feudais sejam opressivas por natureza, no momento, elas estão resistindo aos imperialistas do USA. Não se pode ser cego para essa realidade. Isso não significa que elas sejam verdadeiras forças anti-imperialistas e, também, que apóiem o povo de seus países. Elas são forças de exploração.

Em tempos de crise profunda, como a que estamos vivendo, não se pode descartar a possibilidade de uma aliança com as forças políticas do Islã, junto a uma ampla frente de forças, para esmagar o imperialismo, o inimigo número um dos povos do mundo e predador do planeta Terra. É o povo desses países que decidirá sobre as forças feudais, incluindo as forças políticas do Islã, como e por que elas devem ser combatidas. Mas imperialistas, como os norte-americanos, nunca deveriam ser autorizados a ocupar ou declarar guerra a esses países em nome de “punir os terroristas” e “guerra ao terror”. Também condenar essas forças, ao mesmo tempo, junto com os piratas imperialistas, não leva a lugar nenhum.

13)Quais os principais objetivos que poderiam ser estabelecidos para uma possível trégua com o governo e para um programa dos comunistas?

Resposta: Os revolucionários comunistas, em todo o mundo, em qualquer período da história, nunca se recusaram a entrar em um diálogo com as classes dominantes, do seu tempo e espaço. Eles vêem as negociações e diálogos como parte integrante da luta para levar a sociedade à frente. Eles vêem que a luta de classes continua em tempos de guerra total e de relativa paz. Mas é a classe dominante que se recusa a entrar em todas as mesas de negociações, uma vez que não encontra respostas para suas atividades criminosas e brutais de exploração.  Às vezes, a trégua torna-se necessária para ambos os lados na luta de classes. Isso já aconteceu na história, quando a luta de classes era liderada pelos revolucionários comunistas ou pelas forças de libertação nacional. Os revolucionários, na Índia de hoje, em face de uma guerra inusitada, declararam que eles estão preparados para um diálogo, respondendo às declarações do Ministro do Interior da Índia. Mas ele, inicialmente, colocou como condição que o PCI (Maoísta) deveria lagar as armas. Quando isso foi questionado pela mídia e pela intelectualidade, ele mudou a voz e começou a pedir aos maoístas para “abjurar a violência”. Deliberadamente, isto é pura hipocrisia e arrogância para impedir qualquer possibilidade de um diálogo, pois como o próprio Ministro do Interior sabe, a violência é perpetrada pelo Estado e não pelos revolucionários. O Governo da Índia impõe ao PCI (Maoísta) a condição de «abjurar a violência” mas, ele pede ao PCI (Maoísta) que não imponha quaisquer condições! Nestas circunstâncias, o que podemos ver é que o governo da Índia, de hoje, não está preparado para um diálogo com os revolucionários; não porque eles estejam em uma posição de força para enfrentar os graves problemas que as pessoas estão enfrentando, mas porque eles não têm qualquer proposta de solução da crise. Eles estão com medo dos revolucionários, pois a última oferta dada como alternativa vai atrair o povo e, abertamente, as pessoas, em geral, irão apoiar os revolucionários.

Os revolucionários se prepararam para o diálogo, no caso do regime no poder entrar em um acordo de cessar-fogo concreto e liberar os líderes encarcerados nas prisões, que iriam participar no diálogo. Abertamente, os revolucionários têm declarado que estão pronto para trégua da guerra do governo, que já mostrou ser um grande genocídio sobre milhões de pessoas, particularmente os adivasis. Eles declararam que querem evitar o sofrimento e derramamento maciço de sangue nas regiões mais atrasadas do país.

14) O estudioso Samir Amin diz que é preciso começar de novo, desde o fracasso da Conferência de Bandung? Hoje, em que forças os comunistas poderiam confiar?

Resposta: A Conferência de Bandung levantou sérias questões sobre a autodeterminação nacional, a auto-suficiência e a coexistência pacífica das nações. Mas, hoje, nós vemos um mundo que está envolto em guerras, genocídios e opressão. As questões abordadas pela Conferência de Bandung ainda são válidas, mas o imperialismo e o social-imperialismo soviético, juntamente com seus colaboradores, prejudicaram drasticamente o núcleo essencial das questões da Conferência de Bandung. Hoje, quando o ataque mais elevado do capital moribundo, sob a forma de globalização, abriu novos teatros de guerra em todo o mundo, existem apologistas do imperialismo e seus lacaios locais, que insistem em que os dias do Estado Soberano acabaram, e que não se pode mais falar em validade e legitimidade das lutas de autodeterminação nacional. Hoje, há esta idéia criada sobre a chamada “Aldeia Global”. Mas o âmago da questão é que o Estado, no oeste industrializado e nos países oprimidos, se tornou cada vez mais forte e ele está se transformando em um assim chamado “Estado de segurança máxima”, ou “Estado de titularização”, com várias leis de segurança internas, draconianas e antipovo, de modo a reprimir qualquer forma de dissidência. Onde o Estado desapareceu foi somente na arena do setor social que tinha sido aberta à mercê dos cães do mercado sedentos de sangue. Nos últimos 20 anos, a agressiva política de liberalização, privatização e globalização imposta aos povos oprimidos e à classe operária do mundo pelos imperialistas acentuou as lutas pela autodeterminação nacional. A exploração dos países oprimidos aumentou acentuadamente. Dentro dos países oprimidos, as minorias étnicas e nacionais tornaram-se mais oprimida com o saque ilimitado a partir de dentro do país e dos imperialistas. Com este aumento desenfreado da exploração muitas lutas nacionais de libertação ganharam impulso. Somente no Sul e no Sudeste Asiático dezenas e dezenas de movimentos de libertação nacional intensificaram suas lutas. A ocupação do Afeganistão e do Iraque e a posterior expansão da guerra ao Paquistão mostram a rota que os imperialistas estão tomando. Agora, as guerras contra os povos do Sri Lanka e da Índia são inspiradas e guiadas pelos imperialistas para a pilhagem dos recursos naturais. Os revolucionários comunistas, as forças de libertação nacional e seções de forças políticas islâmicas, juntamente com todas as forças anti-imperialistas e democráticas em cada país e em todas as regiões continentais,  senão internacionalmente, agora, têm que se unir em alianças, imediatamente, a fim de enfrentar a atual ofensiva das forças imperialistas.

15) Como você considera a situação no Nepal, em nível interno e na dinâmica das relações entre a China e a Índia?

Respopsta: A situação interna no Nepal é grave. As massas revolucionárias do Nepal estão avançando a passos largos, sob a liderança do PCNU (Maoísta), enquanto as classes dominantes, em colaboração com expansionistas indianos e imperialistas do USA estão tentando sabotar o processo revolucionário. Os governantes indianos trabalharam e derrubaram o Governo liderado pelos Maoístas e instalaram um regime fantoche no Nepal, com vista a travar o processo de elaboração de uma nova Constituição, através de uma Assembléia Constituinte eleita. As forças dominantes do Nepal impediram, até agora, qualquer passo no sentido da abertura do debate democrático entre as massas envolvendo uma Constituição Democrática Popular. O velho Estado ainda está intacto, embora a Monarquia tenha sido esmagada. Os imperialistas norte-americanos e os expansionistas indianos estão bastante ativos na prevenção da transformação social revolucionária do Nepal. As forças revolucionárias do Nepal trabalhando junto com seu povo estão seriamente empenhadas na evolução de novas estratégias e táticas para derrotar os maus desígnios dos mercadores de guerra indo-americano, enquanto o regime chinês está observando atentamente os acontecimentos dramáticos se desdobrando todos os dias. Nestas circunstâncias, qualquer ataque ao Nepal, pela Índia e pelas instituições do USA, irá desencadear um grande conflito no Sul da Ásia com a China entrando em cena de forma decisiva. Depois do que o USA está fazendo no Paquistão, a China não vai tolerar mais que o USA intervenha no Nepal através da Índia, o que irá perturbar o equilíbrio geopolítico já vulnerável no Sul da Ásia.

16) Durante a campanha eleitoral, os Naxalitas bloquearam muitos trens? Qual foi a reação da população? Você pode nos contar algum episódio?

Resposta: O porta-voz do PCI (Maoísta) esclareceu sobre este assunto em uma resposta ao comentário de Sumanto Banejee no Economic and Polítical Weekly, vol. XLIV, nº 38, 19 de setembro de 2009, pp 73-77. Permitam-me citá-lo aqui sobre um episódio do seqüestro de um comboio: A primeira inverdade – ou distorção, se alguém quiser chamá-la assim – é o assim chamado seqüestro do trem. Ou sensacionalizar, afim de adicionar alguma cor para desenhar novas histórias sem graça, ou, mal intencionado para projetar os Naxalitas como a maior ameaça à segurança interna e, consequentemente, provocar os governantes para levantar e implantar mais forças centrais em áreas Maoístas, os meios de comunicação, intencionalmente, ampliaram e exageraram o incidente. Um protesto de massa, no qual algumas centenas de pessoas pararam o  trem de passageiros procedente de Barkakhana para Mughalsarai, na estação de Hehegada, no distrito Latehar, em  Jharkhand, durante quatro horas, foi transformado em um seqüestro sensacional! Se um canal de notícias desse a notícia assim, nenhum outro canal ia querer ser deixado para trás e a história cresceria e cresceria sem parar por 24, 48 ou até mais horas, dependendo do interesse que gera entre os telespectadores…

Se alguém fizesse um pouco de reflexão sobre o significado da palavra “seqüestro” não se tornaria uma presa tão fácil para os tubarões da mídia. Onde, tinham os maoístas seqüestrado o trem? Teriam eles desviado o trem de sua rota habitual, forçando o maquinista ou guarda? Se não, como alguém pode descrever isso como um seqüestro?

Deve ser enfatizado que o assim chamado seqüestro por manifestantes que pararam o trem ficando de cócoras sobre os trilhos por quatro horas não está relacionado de nenhuma forma com o apelo ao boicote das eleições lançado pelo Comitê Central do PCI (Maoista). Como ficou claro pelo porta-voz do nosso Partido, em Jharkhand, logo após o incidente, o protesto foi organizado como parte de um planejamento exigindo um inquérito judiciário sobre o brutal assassinato a sangue-frio de cinco jovens pelo pessoal da Força Central de Reserva da Polícia, (FCRP), na aldeia Badhania, que está sob o PS Barwadih, no distrito de Latehar. Os cinco jovens foram pegos uma hora depois da explosão das minas colocadas por guerrilheiros maoístas que mataram dois homens da FCRP, na manhã do dia 16 de abril. Os aldeões foram mortos a tiros duas horas depois que a FCRP tinha perdido seus homens emboscados pelos maoístas. O falso encontro gerou protestos em todo o Estado por quase uma semana em muitos lugares. O amedalhado superior da polícia teve de admitir publicamente que era um encontro falso e, no final do mês, três policiais superiores foram removidos de seus cargos como conseqüência direta deste incidente brutal. Assim, pelo menos agora, fica bem claro que o trem ficou retido em Hehegada por manifestantes desarmados em um protesto contra o falso encontro, e não, vamos repetir, pelo boicote das eleições.” (From: http://www.bannedthought.net/India/CPI-Maoist-Docs/index.htm). Eu não preciso dizer mais nada aqui.

17) Qual é a situação e quão forte estão os comunistas em relação aos mineiros?

Resposta: Os revolucionários têm a sua presença entre os mineiros em Singareni Coalfields (Sul da Índia) e Coalfields Oriental. Já houve tempo em que os revolucionários eram a força principal e central em Singareni Coalfields, mas esse movimento, em grande medida, foi esmagado. Mesmo assim, ainda sobrevive.

A propósito, outros setores da mineração estão preocupados, não sabemos exatamente a situação. A razão é que a maioria do movimento revolucionário na Índia está subterrâneo. A mineração ocorre principalmente nas regiões onde o movimento revolucionário também é forte. Mas é muito difícil discernir todos os detalhes e a expansão das atividades, pois estas áreas são inacessíveis aos ativistas urbanos e o Estado não permite que os ativistas sociais das áreas urbanas circulem livremente nas áreas de intenso movimento revolucionário.

18) Qual é a presença do naxalitas nas fábricas e qual seu programa?

Resposta: Vários partidos Naxalitas trabalham em várias fábricas e eles têm os seus programas entre os trabalhadores. Nos anos 1980 e 1990, vários partidos Naxalitas tiveram forte presença entre as indústrias, tanto em cidades metropolitanas como em outras redes industriais. Agora, as suas organizações entre os operários industriais caíram drasticamente. Os revolucionários sempre tentaram organizar os setores não organizados, enquanto o setor organizado está dominado pelos sindicatos revisionistas e reacionários. O PCI (Maoísta) tem um documento detalhando a perspectiva pela qual eles acompanham de perto para desenvolver o seu trabalho entre os operários e outros setores da classe média urbana. Podemos ver as  tentativas deles de se organizarem clandestinamente, em grande número, nas redes industriais, apesar da tentativa do Estado de detectar a sua presença e esmagar o movimento da classe operária. No entanto, já podemos ver o início de uma onda maciça de redes industriais e bairros com a recessão batendo duro em cada canto e esquina deste vasto país, com 80 por cento da população vivendo, em média, com menos de meio dólar por dia, no ano. A aristocracia operária, o lumpenisato e a escravização da força de trabalho, por parte das forças de direita, têm sido preponderantes nas duas últimas décadas. Mas as tendências atuais dos militantes dos movimentos da classe operária que estão rompendo isso são altamente promissoras. Juntamente com isto deve ser vista a abertura do enorme setor de varejo da economia indiana às corporações multinacionais. Isto simplesmente irá acabar com nada menos de 40 milhões de empregos em toda a extensão do país. E o tipo de turbulência, que a Índia urbana e rural está aguardando, é para se esperar e ver.

19) Quem você acha que poderia ser considerado simpatizante e aliado da resistência em massa do povo e lutar por um tipo alternativo de desenvolvimento nos países capitalistas avançados?

Resposta: Nos países capitalistas avançados, as alianças da classe operária e setores democráticos e progressistas da classe média, incluindo os intelectuais, de um lado e os trabalhadores migrantes de países oprimidos por outro são importantes. Anti-racistas, anarquistas e forças antiguerra, em geral, constituem os setores democráticos das sociedades nos países capitalistas avançados. O que é necessário hoje, nos países imperialistas, é construir fortes partidos marxista-leninistas. É o momento para esses partidos assumirem campanhas de imediato pelo socialismo, como a única alternativa que dissipará décadas de propaganda contra o socialismo e projetos socialistas desenvolvidos pela classe operária, desde a Comuna de Paris até os avanços históricos feitos na China. É importante também não esquecer os erros cometidos ao fazer esses avanços revolucionários e armados com esta visão de se mover para frente.

É importante para as classes operárias dos países capitalistas avançados/imperialistas desenvolverem profundas relações com os movimentos revolucionários dos países oprimidos.

20) O que você acha sobre o eixo dos países progressistas, na América Latina, que falam de “Socialismo do Século 21″ como seu próprio caminho? 

Resposta: A América do Sul tem assistido a grandes mudanças nas suas lutas e novas dimensões foram trazidas à luz. Os termos que estão sendo usados como “Socialismo do Século 21” ou “Socialismo Bolivariano” é algum tipo de mudança terminológica que indica tendências pequeno-burguesas na política radical, embora elas também representem um desejo de inventar nova linguagem para o movimento revolucionário. Mas, alguns dos dirigentes de nível superior e estas forças que assumiram o poder em nome do povo reduzem os movimentos radicais a um reformismo social, que não conta com a luta de classes mais adiante e nem aumenta a luta contra o imperialismo. Há uma necessidade urgente de estreitar as relações, a serem feitas entre as lutas dos três continentes, Ásia, África e América do Sul para se entenderem uns aos outros e partilharem suas experiências a fim de construírem um forte movimento anti-imperialista mundial, sempre mostrando como esses três continentes têm sido explorados pelos imperialistas desde a época colonial clássica até o imperialismo atual, incluindo a sua mais recente fase de Liberalização, Privatização e Globalização.

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