O papel do imperialismo ianque como superpotência hegemônica única e o FED, a única fonte de liquidez global (Associação de Nova Democracia Nuevo Peru, 2020)

01/06/2020

A crise geral do imperialismo, que é a última etapa do capitalismo, se desenvolve em meio a todo tipo de crises, em meio de uma série complexa de guerras, pandemias, desastres de toda natureza e está sendo varrido pela guerra popular que começou em 1980, no Peru, e nos leva à guerra popular mundial para enterrar o imperialismo.

Dentro de sua crise geral atravessada por uma nova crise econômica cíclica, de superprodução relativa (em que pese a necessidade insatisfeita de imensas massas humanas e da abundância de imensas mercadorias necessárias para satisfazê-las, as grandes massas não podem consumi-las porque não têm a renda para fazê-lo, essas necessidades não se concretizam em demanda solvente, consequência da superprodução de mercadorias que há que destruir – crises – para alcançar o equilíbrio e começar de novo, sempre de mais abaixo).

Esta crise se dá em todos os planos, não somente no econômico, eles mesmos confessam, como poderão ler mais abaixo; esta nova crise cíclica é mais funda e profunda e arrasta o imperialismo a uma mais ampla e profunda crise política, demonstrando que eles já não podem seguir governando como antes e que as massas não estão dispostas a seguir vivendo como até agora. Compromete tanto sua ordem internacional como nacional; as velhas alianças imperialistas perdem vigência e o imperialismo ianque se mostra mais prepotente que nunca. Trump, em sua condição de máximo representante do mesmo, expressa como ninguém tal condição. Os representantes do Partido Democrata, os revisionistas como Avakian, simpatizantes dos democratas em todo o mundo, oportunistas e revisionistas consideram que Trump não é um digno representante do imperialismo, mas ninguém como ele interpreta melhor o papel neste momento. A crise atual, em um nível mais significativo que a de dez anos atrás, é um novo marco no longo processo de afundamento do imperialismo.

A crise atual mostra quem é a superpotência hegemônica única. Assim, se vai afundando todo um sistema e mostrando que só serve para ser varrido pela guerra popular. O imperialismo é câncer. Os povos não necessitam dele.

Na crise iniciada em 2008, o imperialismo ianque, atuando na condição de superpotência hegemônica única forneceu liquidez aos demais países imperialistas, o que se vai repetir na atual crise do chamado “coronavírus”, mas em um nível que se considera vai ser o triplo da crise de 2008.

Documentamos o endividamento que foi referido em uma postagem anterior, para expandir o ciclo, logo a provisão de liquidez em 2008 e agora, além da colusão e pugna, sendo a colusão principal, e que a crise como a atual já estava anunciada, como também se pode ver nas citações abaixo:

“Mas o último episódio é sensivelmente brutal: uma superbolha de quase 60 anos inflada a base de crédito, de dívida, cada vez que o sistema financeiro se metia em problemas apareciam os bancos centrais com novas fórmulas para estimular a economia. Essa superbolha acabou escapando das mãos do sistema quando as inovações financeiras – subprime, derivados, CDO, CDS e demais jargãos impossíveis – se complicaram tanto que as autoridades já não pareciam capazes de calcular os riscos dos próprios bancos.” (NT: em finanças, empréstimos subprime é a concessão a pessoas que podem ter dificuldades em fazer o pagamento. As taxas de juros são altas e os prazos menos favoráveis, para compensar um risco maior de crédito. Muitos empréstimos subprime foram empacotados em títulos lastreados em hipotecas e, finalmente, foram inadimplentes, contribuindo para a crise financeira de 2008.)

Até que um dia essa magia se esfumaçou. A partir de setembro de 2008… “a relação incestuosa entre as autoridades e seus bancos acabou explodindo”, aponta Soros na tormenta financeira. O resultado foi a crise mais grave desde a IIª Guerra Mundial. E nesta crise, o imperialismo ianque, atuando em sua condição de superpotência hegemônica única, proveu de liquidez os demais países imperialistas, o que se vai repetir na atual crise, do chamado coronavírus, mas a um nível que se considera vai ser o triplo da crise de 2008. Ver que se dá em colusão e pugna, sendo a colusão principal, como se pode inferir na citação abaixo:

A tormenta perfeita durou até início de outubro de 2008: até que os ministros de Finanças do G7 e do G20 formularam um compromisso inequívoco para impedir a quebra das instituições financeiras sistêmicas. ‘Não mais Lehmans’, foi a consigna: em última instância, apesar do triunfo dos apóstolos do livre mercado, só a intervenção decisiva e globalmente coordenada dos governos e bancos centrais deteve o pânico. Apesar disso, os paradigmas mudaram pouco ou nada nas tempestuosas águas da política econômica: os sintagmas mágicos preferidos das autoridades na Europa eram, e são, austeridade expansiva (seja lá o que seja isso) e reformas estruturais. Os estadunidenses leram melhor Keynes e sobre política fiscal e foram mais audaciosos com a política monetária. A Europa sofreu muito mais: o BCE (Banco Central Europeu) chegou tarde e Berlin impôs uma camisa de força fiscal, que expandiu muito mais a crise.

(…) Foi uma crise de mil caras: financeira, econômica, social, de dívida, estadounidense, europeia, de emprego, política, migratória, de todo tipo. Para detê-la, os líderes mundiais prometeram pouco menos que uma refundação do capitalismo; a prioridade era encabrestar o sistema financeiro. (…) Não houve tal refundação: “O sistema financeiro atual é tão perigoso e frágil como o que levou à crise”, assegura Martin Hellwig, do ‘Instituto Max Planck’ (…) (Nota nossa: destaco esta parte do citado, porque demonstra como eles mesmos veem que não é só na base, senão abarca tudo o que corresponde a uma crise dentro da crise geral.)

E ao final do artigo aparecem duas advertências do que estava se revelando e que hoje estamos assistindo como crise do corona:

“Não creio que haja perigo iminente, mas me sinto incomodado: a regulamentação financeira não se reforçou o suficiente e a próxima crise está esperando, inquietante, em algum lugar”, adverte Paul De Grauwe, da London School of Economy/LSE (…)

Alguns dos grandes vilões destas crises foram os principais responsáveis dos bancos envolvidos (…), que deixaram um aviso aos navegantes: “Sei que ninguém quer escutar isto, menos ainda se for dito por mim, mas os ricos estão se tornando cada vez mais ricos e, de novo, o coração da economia está adoecendo. Sou um capitalista incondicional, mas sejamos justos: o capitalismo só funciona se a riqueza nasce na parte superior e depois se filtra para baixo. Se a riqueza não baixa haverá problemas.” (Nota nossa: cínicas palavras de um sujeito como este, que aponta a causa da superprodução relativa e a necessidade de encobrir a superexploração das classes para que tudo siga igual, porque o problema não está na distribuição, senão na produção, nas relações sociais de produção.)

(Recessão persistente: crônica dos 10 anos de crises que mudaram o mundo – O 15 de setembro de 2008 foi a versão moderna do ‘crash’ de 1929 e seus efeitos persistem. El País, Claudi Pérez, Twitter, 09/09/2018 – 13:25 CEST)

Com as seguintes citações documentamos os mesmos pontos, mas referidos à crise atual:

“Quando as linhas chinesas de abastecimento se interromperam, no final de fevereiro, devido às paralisações que tentavam deter a propagação do coronavírus, as empresas e instituições financeiras de todo o mundo começaram a ter problemas para obter recurso. Em resposta, as empresas venderam ativos, como ações, e os bancos começaram a restringir os empréstimos. Como todos tentaram vender tudo de uma vez, os preços tiveram um colapso, o que exigiu mais vendas e causou novas quedas de preços. Durante as três semanas posteriores, os mercados bursáteis (de bolsas de valores) de todo o mundo perderam entre 20 a 30% de seu valor e as moedas colapsaram quando todos, em todo o mundo, venderam tudo a troco de dólares. Com efeito, isto foi uma queda repentina no mundo, entre a queda de Bear Stearns, na primavera de 2008, e a quebra de Lehman Brothers. Em 2008, a crise foi chamada de uma “crise creditícia”. Em geral, se chama de “armadilha de liquidez” [“liquidity trap”]. E nunca houve uma corrida global por dólares tão rápida e na escala da “armadilha de liquidez” como na crise do coronavirus.Em resposta, houve uma onda sem precedentes das atividades de políticas monetárias. Os bancos centrais de todo o mundo, especialmente o Federal Reserve Board (adiante, também chamado “FED”) (NT: Também traduzido como Sistema de Reserva Federal, esta é uma instituição estadunidense responsável pela supervisão do sistema bancário e pela definição da política monetária aplicada naquele país. Atua de maneira semelhante ao que o Banco Central faz no Brasil), interviu para apoiar principalmente a todos os mercados de crédito do planeta. Em 12 de março, o FED anunciou que havia posto a disposição 1,5 trilhões de dólares para o “mercado de compras de dívidas”, que é a principal fonte de crédito, a curto prazo, no sistema financeiro (Nota nossa: ‘compras de dívidas’, ‘retrovenda’, ‘comprar outra vez’, ‘adquirir novamente’, é a principal fonte de crédito a curto prazo no sistema financeiro. É uma operação na qual uma parte, geralmente um banco central, vende um título a um comprador que o devolve, tempos depois, por um preço mais alto). Inclusive, no mundo depois de 2008, de gigantescas intervenções dos bancos centrais, 1,5 trilhões de dólares é muito. O FED fez isso em um dia particularmente bom: sexta-feira 13.

Durante o fim de semana, o FED decidiu que a pandemia, declarada, oficialmente, na quarta-feira, dia 11 de março, havia empurrado os mercados financeiros a um território totalmente desconhecido. Reduziu as taxas de juros a zero, movendo-se em um só salto, quatro de suas passagens típicos de 0.25%, e anunciou que compraria 500 trilhões de dólares em valores do Tesouro (uma variedade de “dívida segura” do governo do Estados Unidos emitida pelo Departamento do Tesouro para diferentes períodos de duração) e 200 trilhões de dólares em valores garantidos por hipotecas. O FED reiniciou assim o programa de expansão quantitativa de 2011-2014 em escala imensa (Nota nossa: “Expansão quantitativa” ou “quantitative easing” é uma ferramenta de política monetária expansiva realizada pela via de compra massiva de ativos financeiros presentes no mercado, pelo Estado). A proposta era inundar os mercados financeiros com recursos, o mais rápido possível, para que os bancos pudessem seguir emprestando, os compradores de ações pudessem seguir comprando e as instituições pudessem seguir realizando seus pagamentos de dívida. A imprensa financeira, que gosta das metáforas militares, qualificou a proposta de “bazuca nuclear”.

O ataque nuclear fracassou. Quando os mercados reabriram na segunda-feira, 16 de março, todos os índices de Wall Street perderam, de imediato, em torno de 12 % de seu valor. Logo, o FED anunciou que compraria 1 trilhão de dólares de “papel comercial” [“commercial papper”], que é dívida corporativa não garantida a curto prazo. A lei da Reserva Federal exige que o FED não assuma riscos e somente troque recursos por ativos seguros, como os bônus do Tesouro, pelo que a decisão de compra de 1 trilhão de dólares, em algo relativamente arriscado como a dívida corporativa não garantida, seria surpreendente em qualquer outra circunstância.

O Banco Central Europeu anunciou seu próprio fundo de 750 trilhões de euros para comprar dívida comercial e governamental. Os bancos centrais de todo o mundo começaram a utilizar todos os meios disponíveis para injetar recursos em seus mercados financeiros. Para respaldar seus esforços, o FED deu a outros bancos centrais acesso a 450 trilhões de dólares em permutas de divisas [“swaps de divisas”], essencialmente, acesso a dólares no caso de que seus bancos tivessem que fazer pagamentos em dólares, ou seus bancos centrais tivessem que apoiar suas moedas com dólares. Para o dia 23 de março, o FED havia anunciado que faria tanta “expansão quantitativa” [ou “QE”, “quantitative easing”] quanto fosse necessário, para apoiar o sistema financeiro:expansão quantitativa infinita [QE Infinity] .

Parecia que o infinito era o preço necessário para estabilizar o sistema financeiro global. As ações se recuperaram e nenhuma instituição “sistemicamente importante” falhou, inclusive quando mais de 22 milhões de estadunidenses (uma cifra parcial refletida nos anúncios de seguro-desemprego) perderam seus empregos no pior colapso do mercado de trabalho registrado na história humana. A lei CARES [“Coronavirus Aid, Relief, and Economic Security Act”/ “Alívio e Segurança Econômica do Coronavirus”], de 2,2 trilhões de dólares, aprovada em 27 de março, contém 500 trilhões de dólares em empréstimos e garantias de empréstimo sob o controle de Steve Mnuchin, o Secretário do Tesouro, ex-executivo da Goldman Sachs e ex-CEO do depredador agiota hipotecário OneWest. (NT: CEO é a sigla de Chief Executive Officer, que significa ‘Diretor Executivo’. CEO é a pessoa com maior autoridade na hierarquia operacional de uma organização. É o responsável pelas estratégias da empresa, mas não são todas as empresas que têm uma pessoa no cargo de CEO.). Disso, 454 trilhões de dólares serão entregues ao ‘Fundo de Estabilização de Intercâmbio’ (“Exchange Stabilization Fund”) do FED, como garantia para que o FED possa outorgar empréstimos a empresas medianas.

(…)

É necessário contextualizar estes fundos para a resposta à crise desatada pelo coronavírus, no alcance mais amplo das mudanças em curso na estrutura das finanças globais, e as implicações correspondentes para pessoas reais com trabalhos reais. Muito antes de fevereiro, havia indícios de que os mercados de capitais estavam enfermos. O mercado de “compra de dívidas” se contraiu, abruptamente, em setembro de 2019, o que levou o FED de Nova York a oferecer 75 trilhões de dólares todos os dias, em fundos de vinte e quatro horas. No verão de 2019, a famosa “curva de cupom zero” (“yield curve”) do custo da dívida do Tesouro se inverteu, o que geralmente indica que os mercados financeiros esperam uma recessão iminente e, portanto, estão dispostos a pagar mais pelo acesso a uma dívida pública segura a curto prazo. Desde 2011, pelo menos, a acumulação de capital estava ocorrendo sobre a base da contínua expansão quantitativa e das baixas taxas de juros: um fluxo incessante de dinheiro barato, que fez com que, inclusive, entidades abertamente ridículas como WeWork (‘Nós Trabalhamos’) parecessem brevemente empresas multimilionárias. As corporações haviam usado, principalmente, esse recurso barato para recomprar suas próprias ações. As recompras alcançaram um máximo histórico em 2018, quando as corporações estadunidenses gastaram 1,09 trilhões de dólares na compra de suas próprias ações. O segundo nível mais alto foi em 2019 (as recompras de ações são excelentes para os acionistas: as empresas compram mais controle de si mesmas e aumentam os preços das ações, porque há menos ações em circulação e qualquer um que tenha essas ações se enriquece). (Nota nossa: isto é importante e esclarece porque economistas do mainstream (NT: tendêndia predominante) dizem que a bolsa não tem nada a ver com a economia real)

As grandes corporações também haviam estado ocupadas comprando entre si: os anos de 2018 e 2019 estabeleceram recordes para a atividade global de fusões e aquisições, o qual se desacelerou, abruptamente, em janeiro de 2020. Em 2018, as ações estadunidenses não mostraram ganhos no total e o jornal Financial Times informou que, essencialmente, todas as classes de ativos globais (“asset classes”) haviam perdido valor (Nota Nossa: “asset classes” é um grupo de instrumentos financeiros que têm características financeiras similares e se comportam de maneira similar no mercado). Os mercados financeiros não funcionaram como se supunha. Não estavam fazendo coincidir os poupadores com os necessitados de créditos para impulsionar o crescimento do emprego, a inovação, a concorrência e todas as demais características de uma economia capitalista. Um punhado de grandes corporações estavam utilizando o excesso de dinheiro barato do Governo para se tornarem ainda maiores, para comprar seus rivais e para enriquecer seus acionistas a um nível que eles mesmos pareciam crer que era insustentável e que estava a ponto de produzir uma recessão. (Nota nossa: crônica de uma morte anunciada, como sugere a declaração de 1º de Maio de 2020)

O sistema monetário depois de 2008 não era como os encarregados das políticas mundiais; haviam sido educados para administrar, com um conjunto de ferramentas que aprenderam a usar na longa era da hegemonia neoliberal, entre 1979 e 2007. Os bilhões de dólares de liquidez do banco central não produziam inflação. As baixas taxas de juros estavam perdendo força. Algo estava mal. Era claramente impossível continuar essa crise monetária de baixo nível para sempre, mas também resultava impossível fazer qualquer outra coisa. A pandemia aniquilou a maioria dos limites do possível. O Federal Reserve é agora a única fonte de liquidez global, proporcionando recurso não apenas para todos os mercados financeiros e de crédito do planeta, como também aos bancos centrais do mundo. Sua independência legal e seu isolamento da supervisão democrática ou de toda prestação de contas significa que pode atuar mais rápido e com mais enfoque que qualquer outra instituição de governo no planeta. A princípio, o Congresso do Estados Unidos é soberano e o FED é uma agência delegada, sujeita a muitas leis que restringem o que se pode fazer. Mas para que essa relação de poder funcione, o Congresso teria que funcionar e afirmar seu papel constitucional como um controle de outros ramos do governo. Sem dúvida, o Congresso não tem a capacidade e nem o interesse de fazê-lo, o que significa que, na prática, o Federal Reserve decide sobre exceções e normas e determina como atuar quando as instituições normais demonstrem serem incapazes. A crise de 2020 revelou o alcance do poder que foi acumulado desde 2008. Como Adam Tooze argumentou recentemente, a verdadeira localização da hegemonia global estadunidense não se encontra na Casa Branca, mas no Federal Reserve.

(“A soberania do FED”. Por: Trevor Jackson, Em termos de governo de crises, o Estados Unidos não é um país com um banco central. É um banco central com um país.
Fonte: Dissent Magazine, 16 de abril de 2020. Tradução e notas explicativas, por Héctor Testa Ferreira.)

Outra fonte para documentar sobre la hegemonia do imperialismo ianque nas finanças mundiais:

“Em março, quando a Europa e o Estados Unidos começaram a compreender a magnitude da pandemia do Covid-19, os investidores entraram em pânico. Os mercados financeiros desabaram. A derrota foi tão severa que em várias ocasiões, na segunda e terceira semanas de março, o funcionamento normal do mercado estava em dúvida. Os preços dos bônus do Tesouro do Estados Unidos, o último ativo seguro para os investidores de todo o mundo, se moveram violentamente na medida em que os administradores de fundos, lutando para obter recurso, vendiam tudo o que podiam vender. No mercado de divisas, através do qual normalmente circulam mais de 6 quadrilhões de dólares a cada dia, o trânsito foi em uma só direção: de todas as moedas do mundo para dólares. Nenhum mercado pode funcionar por muito tempo assim. A libra esterlina se destruiu. Inclusive, o ouro foi vendido. Esta não foi uma crise bancária como a de 2008, mas se não fosse pela espetacular intervenção realizada no Federal Reserve do Estados Unidos, o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu estariam, agora, enfrentando não apenas os estragos da Covid-19 e as desastrosas consequências sociais e econômicas de fechamento, mas também um ataque cardíaco financeiro. Por outro lado, estamos experimentando uma onda expansiva de contração creditícia. A produção e o emprego reduziram-se drasticamente. Enormes programas de gastos públicos foram colocados em marcha, não para criar empregos, mas para sustentar a economia com apoio vital. O desafio não é meramente técnico. Esta é uma crise global, que afeta praticamente todas as comunidades do planeta. E revelou marcantes diferenças entre os principais blocos econômicos (NT: a expressão “bloco econômico” foi mantida como no texto original, mas se faz necessário um esclarecimento do autor sobre a razão dele ter usado a mesma no presente artigo, visto que ele não usa tal conceito), de modo que agora é mais difícil do que nunca entender como se encaixa, realmente, o que chamamos de economia mundial.

Os três grandes centros de produção, troca e atividade corporativa são Estados Unidos, China e a Eurozona. Estes centros econômicos estão unidos mediante fluxos de comércio, organizados através de complexas cadeias de abastecimento que abarcam todo o mundo. Cada um dos três centros tem uma zona de influência que se estende às regiões vizinhas da América Latina, Europa Central e Oriental, África e Ásia. Todos estão unidos a um sistema financeiro global, que utiliza o dólar estadunidense como moeda de comércio e crédito. Cada um dos três centros tem debilidades características. A preocupação sobre a China é a sustentabilidade de seu crescimento econômico impulsionado pela dívida. As debilidades básicas da Eurozona são que, todavia, não têm um respaldo para seu sistema bancário desvencilhado que carece de uma capacidade fiscal compartilhada. Além disso, as finanças da Itália são tão débeis que ameaçam, continuamente, alterar a solidariedade europeia. No Estados Unidos, as instituições nacionais de política econômica realmente funcionam: demonstraram isso em 2008 e estão fazendo isto novamente agora. O FED e o Tesouro exercem uma grande influência não apenas sobre a economia do Estados Unidos, mas sobre todo o sistema global. A pergunta é como se mantém, em relação a uma sociedade estadunidense profundamente dividida, e como seu estilo tecnocrático de formulação de políticas é recebido pela ala direita nacionalista sem falar no Partido Republicano e seu defensor na Casa Branca.

(…)

A crise confirma, uma vez mais, a posição do Federal Reserve no centro da governança econômica. Existe um novo mecanismo de cooperação entre o FED e o Tesouro, que pode absorver até 450 trilhões de dólares em perdas por empréstimos do FED. Dado que a maioria dos empréstimos serão reembolsados, isto proporciona ao FED um enorme poder de fogo. Mas, não pode abordar qual é realmente a força decisiva na crise, a saber, a epidemia. Menos de 10% dos gastos de estímulo é para o setor de saúde, sem dúvida, se necessita, desesperadamente, de fundos para reparar um sistema que, inclusive, quando se impulsiona mais além de sua capacidade máxima está ameaçado de um colapso financeiro. Os melhores hospitais do Estados Unidos são bons em medicina de alta tecnologia e em altos preços. Mas, combater o coronavírus requer uma supressão integral e um tratamento massivo dos transtornos respiratórios. Isso não é para o que está desenhado o sistema excessivamente burocrático do Estados Unidos. Estados como a Califórnia e cidades como Nova York são ricos e estão relativamente bem equipados para responder à emergência. Mas, os outros como Nova Orleans e Detroit, estão empobrecidos e golpeados, que recentemente escaparam da bancarrota. As pessoas recorrem a soluções próprias. Na medida que a pandemia explodiu em Nova York, o Upper East de Manhattan se esvaziou, enquanto os ricos fugiam para suas casas de praia ou propriedades rurais nas colinas do norte do estado. Nos estados vermelhos houve uma corrida às lojas de munições. Não é para matar o vírus: as postagens de Twitter do lobby de armas advertem sobre bandos errantes de prisioneiros libertados por governadores liberais, das prisões superlotadas e insalubres do Estados Unidos.

(…)

Continuaremos insistindo na colusão e pugna interimperialista, que é como se desenvolve esta contradição que ainda não é bem entendido por alguns.

(Postado por: Verein der Neuen Demokratie )

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