Métodos de trabalho nos Comitês do Partido (Mao Tsetung, 1949)

Proletários de todos os países, uni-vos!

Métodos de trabalho nos Comitês do Partido*

13 de março de 1949

1 – O secretário de um comitê do Partido deve saber atuar como um bom “chefe de esquadra”. Um comitê do Partido tem dez a vinte membros; é comparável a uma esquadra do exército, e o seu secretário é como o “chefe de esquadra”. Na verdade, não é fácil dirigir bem essa esquadra. Atualmente, cada birô ou sub-birô do Comitê Central dirige uma grande região e assume tarefas muito pesadas. Dirigir não significa apenas decidir sobre a orientação geral e as medidas políticas específicas, mas também definir os métodos de trabalho corretos. Ainda que a orientação geral e as medidas políticas específicas sejam corretas, podem surgir problemas se se descuram os métodos de trabalho. Para cumprir as suas tarefas de direção, os comitês do Partido devem apoiar-se nos “homens da esquadra” e habilitá-los a desempenhar-se inteiramente do seu papel. Para ser um bom “chefe de esquadra”, o secretário deve estudar com afinco e investigar profundamente. Um secretário ou vice-secretário só achará difícil dirigir bem os homens da sua “esquadra” se não cuidar do trabalho de propaganda e de organização entre estes, se não souber manter boas relações com os membros do comitê ou se não estudar a maneira de realizar reuniões com sucesso. Se os “homens da esquadra” não marcharem na mesma cadência, então será melhor nem pensarem em poder dirigir centenas de milhões de homens no combate e na edificação. É claro que as relações entre o secretário e os membros do comitê se baseiam no princípio de que a minoria deve obedecer à maioria, e diferem, portanto, das relações de um chefe de esquadra e seus homens. Tudo o que dissemos foi apenas por analogia.

2 – Pôr os problemas na mesa. Isto é o que devem fazer não só o “chefe de esquadra”, mas também os membros do comitê. Não falar pelas costas seja de quem for. Assim que surge um problema, convoque-se uma reunião, ponham-se os problemas na mesa para que sejam discutidos, tomem-se decisões, e os problemas ficarão resolvidos. Se os problemas existem e não são postos na mesa, eles ficam durante muito tempo sem solução podendo mesmo arrastar-se por vários anos. Entre o “chefe de esquadra” e os membros do comitê deve haver compreensão mútua. Nada é mais importante do que a compreensão, o apoio e a amizade entre o secretário e os membros de um comitê, entre o Comitê Central e os seus birôs, bem como entre os birôs do Comitê Central e os comitês regionais do Partido. No passado, nós prestávamos pouca atenção a este ponto, mas, a partir do VII Congresso do Partido, realizaram-se grandes progressos a este respeito, e os laços de amizade e a unidade foram consideravelmente reforçados. Para o futuro, devemos continuar a prestar uma atenção constante a este assunto.

3 – “Trocar informações”. Isto significa que os membros de um comitê do Partido devem manter-se mutuamente informados e trocar opiniões a respeito das matérias que vão chegando ao seu conhecimento. Isto é de grande importância para que se consiga uma linguagem comum. Alguns não procedem assim; como os vizinhos de que fala Lao Tse, “não se visitam durante toda a vida, embora cada um ouça o cantar dos galos e o ladrar dos cães do outro”1. O resultado é não terem uma linguagem comum. Alguns dos nossos quadros de alto escalão não tinham uma linguagem comum, mesmo a respeito de questões teóricas fundamentais do Marxismo-Leninismo, pelo fato de não terem estudado suficientemente. Hoje há uma maior identidade de linguagem no interior do Partido, mas o problema não está ainda completamente resolvido. Por exemplo, na reforma agrária, nós ainda não estamos todos de acordo sobre o que deve entender-se por “camponês médio” e por “camponês rico”.

4 – Consultar os camaradas dos escalões inferiores sobre aquilo que não se compreende ou não se conhece, e não expressar com leviandade um acordo ou desaprovação. Certos documentos, já redigidos, não são expedidos, mas antes retidos por algum tempo, precisamente porque neles ainda há pontos a esclarecer, havendo que consultar primeiro os escalões inferiores. Nunca devemos fingir que conhecemos aquilo que não conhecemos; “não devemos ter vergonha de consultar os nossos subordinados”2, antes pelo contrário, devemos escutar cuidadosamente os pontos de vista dos quadros dos escalões inferiores. Há que ser aluno antes de chegar a ser professor; antes de dar ordens, há que consultar os quadros dos escalões inferiores. Todos os birôs do Comitê Central e todos os comitês da frente do Partido devem agir desta maneira para tratar qualquer problema, salvo nas situações militares de urgência ou quando as questões já estão esclarecidas. Longe de afetar o prestígio pessoal, isso não pode senão elevá-lo. Desde que as nossas decisões englobem a visão correta dos quadros dos escalões inferiores, é evidente que estes as apoiarão. Aquilo que dizemos aos quadros dos escalões inferiores pode ser ou não ser correto; depois de escutar, há que analisar. Nós devemos escutar os pontos de vista corretos e agir de acordo com eles. A principal razão por que a direção do Comitê Central é justa está no fato dela fazer a síntese dos materiais, relatórios e opiniões justas que lhe veem de diferentes regiões. Seria difícil ao Comitê Central dar ordens justas, se as organizações locais não lhe fornecessem materiais e não exprimissem as suas opiniões. Também devemos escutar os pontos de vista incorretos vindos de baixo. Seria errôneo não lhes prestar atenção alguma; contudo, esses pontos de vista não devem ser seguidos, mas sim criticados.

5 – Aprender a “tocar piano”. Quando se toca piano, os dez dedos devem mover-se; não se pode tocar apenas com alguns dedos, deixando os outros parados. Mas, se os dez dedos carregam no teclado ao mesmo tempo, também não se consegue qualquer melodia. Para produzir boa música, os dez dedos devem mover-se com ritmo e coordenadamente. Os comitês do Partido devem agarrar bem nas mãos a tarefa central e, ao mesmo tempo, à volta dessa tarefa central, devem desenvolver o trabalho em outros domínios. Atualmente, temos de nos ocupar de muitos setores: devemos ocupar-nos do trabalho em todas as regiões, unidades militares e departamentos, e não dispersar toda a atenção apenas a alguns problemas, excluindo os demais. Onde quer que exista um problema, nós devemos tocar na tecla correspondente; este é um método que precisamos de dominar. Alguns tocam bem piano, outros tocam mal, existindo uma grande diferença nas melodias que produzem. Os camaradas dos comitês do Partido devem aprender bem a “tocar piano”.

6 – “Agarrar com firmeza”. Isto significa que o comitê do Partido deve não somente “agarrar” a sua tarefa principal, mas ainda “agarrá-la com firmeza”. Só se pode dominar uma coisa se a agarramos solidamente nas mãos, sem afrouxar um pouco que seja os dedos. Não agarrar com firmeza equivale a não agarrar a coisa alguma. Naturalmente, ninguém pode agarrar seja o que for com a mão aberta. Quando fechamos a mão, mas não a fechamos com firmeza, temos o ar de agarrar alguma coisa, mas tampouco conseguimos agarrar coisa alguma. Alguns dos nossos camaradas agarram, é certo, as tarefas principais, mas não as agarram com firmeza e, por isso, não podem fazer bom trabalho. Sem agarrar, nada feito; sem agarrar com firmeza, também nada feito.

7 – “Ter os números na cabeça”. Isto significa que devemos atender ao aspecto quantitativo das situações ou problemas e fazer uma análise quantitativa básica. Toda a qualidade se manifesta numa quantidade determinada; sem quantidade, não pode haver qualidade. Até esta data, muitos dos nossos camaradas ainda não compreenderam que devem atender ao aspecto quantitativo das coisas – às estatísticas de base às percentagens principais e aos limites quantitativos que determinam a qualidade das coisas. Eles não têm os “números” na cabeça, e por isso não podem deixar de cometer erros. Por exemplo, ao proceder-se à reforma agrária, é essencial conhecer as cifras, como sejam as percentagens respectivas de senhores de terras, de camponeses ricos, de camponeses médios e de camponeses pobres na população, bem como a quantidade de terras possuídas por cada grupo, já que só nessa base podemos formular uma política justa. Quem devemos classificar como camponês rico ou como camponês médio abastado, qual é a importância do rendimento proveniente da exploração do trabalho que faz de um indivíduo um camponês rico e que permite distingui-lo de um camponês médio abastado – aqui também é necessário determinar um limite quantitativo. Em todos os movimentos de massas devemos proceder a uma investigação e análise básicas do número de partidários ativos, de opositores e dos que se mantêm numa posição intermediária, e não decidir sobre os problemas de uma maneira subjetiva e sem fundamento.

8 – “Avisos à população”. As reuniões devem ser anunciadas com antecedência. É como se se fizesse um aviso à população, de maneira que cada um fique sabendo o que se vai discutir, os problemas que há para resolver, e possa preparar-se a tempo. Em algumas localidades, as reuniões de quadros são convocadas sem que os relatórios e os projetos de resolução estejam prontos, sendo melhor ou pior improvisados quando os participantes já estão presentes, o que lembra o ditado que diz: “As tropas e os cavalos chegaram, mas os víveres e a forragem ainda não estão prontos”. Isso não é bom. Não se deve convocar precipitadamente uma reunião enquanto não estiver bem preparada.

9 – “Menos tropas, mas melhores e uma administração simplificada”. Intervenções, discursos, artigos e resoluções, tudo deve ser claro e conciso. As reuniões também não devem ser demasiado longas.

10 – Prestar atenção à unidade e colaboração com os camaradas que têm pontos de vista diferentes dos vossos. Há que atender a esse princípio, tanto nos organismos locais como no exército. O mesmo é válido para as nossas relações com os indivíduos que não pertencem ao Partido. Nós viemos dos mais distintos cantos do país e, no nosso trabalho, devemos saber unir-nos não só com os camaradas que compartilham as nossas opiniões como também com os que defendem pontos de vista distintos. O mesmo deve valer em relação àqueles dentre nós que cometeram faltas muito graves; não devemos trazê-los vigiados, mas antes estarmos prontos a colaborar com eles.

11 – Guardar-se da arrogância. Isto constitui uma questão de princípio para os dirigentes, mas é também uma importante condição para manter a unidade. Nem mesmo aqueles que não cometeram erros graves e conseguiram grandes êxitos no trabalho devem ser arrogantes. É proibido festejar o aniversário dos dirigentes do Partido. Igualmente é proibido dar o nome dos dirigentes do Partido a localidades, ruas ou empresas. Devemos manter o nosso estilo de vida simples e de luta dura, assim como barrar a adulação e os elogios exagerados.

12 – Traçar duas linhas de demarcação. Primeiro, entre a revolução e a contrarrevolução, entre Ienan e Sian3. Alguns não compreendem a necessidade de traçar tais linhas de demarcação. Por exemplo, quando combatem a burocracia, eles falam de Ienan como se aqui “nada estivesse certo”, e não fazem nem comparação nem distinção entre a burocracia em Ienan e a burocracia em Sian, cometendo assim um erro fundamental. Segundo, no seio das fileiras revolucionárias é necessário proceder a uma clara demarcação entre a verdade e o erro, entre os êxitos e as falhas, e aclarar qual dos dois aspectos é o primário e qual o secundário. Por exemplo, dentro do conjunto, os êxitos são da ordem dos trinta ou setenta por cento? Há que não subestimar nem sobrestimar. É necessário avaliar globalmente o trabalho de cada pessoa e determinar se os seus êxitos são de trinta por cento e os erros de setenta, ou vice-versa. Se os seus êxitos chegam a setenta por cento do conjunto, então o seu trabalho deve ser aprovado no essencial. Seria inteiramente errado considerar como primário os erros de um trabalho, quando, na realidade, são os êxitos o que é o primário. Ao examinarmos os problemas, nunca devemos esquecer-nos de traçar essas duas linhas de demarcação: entre a revolução e a contrarrevolução e entre os êxitos e as falhas. As coisas marcharão corretamente se gravarmos bem no espírito essas duas linhas de demarcação; do contrário, confundiremos a natureza dos problemas. Como é evidente, para traçar corretamente essas linhas, é indispensável proceder a um estudo e a uma análise minuciosos. Há que adotar uma atitude de análise e estudo em relação a cada pessoa e a cada questão.

Os camaradas do Birô Político e eu próprio pensamos que os comitês do Partido só poderão cumprir bem a sua missão se se servirem dos métodos acima expostos. Além de assegurarem o sucesso dos congressos, é extremamente importante que os comitês do Partido, em todos os escalões, desempenhem bem a sua tarefa de direção. Nós devemos fazer todos os esforços para estudar e aperfeiçoar os métodos de trabalho, a fim de elevar ainda mais o nível do trabalho de direção dos comitês do Partido.

Notas:

* Parte das conclusões apresentadas pelo camarada Mao Tsetung na II Sessão Plenária do Comitê Central eleito pelo VII Congresso Nacional do Partido Comunista da China.

1 Ver Lao Tse, capítulo LXXX

2 Ver Confúcio, Conversações, Livro V, “Cungye Tcham

3 Ienan foi a sede do Comitê Central do Partido Comunista da China desde janeiro de 1937 a março de 1947; Sian era o centro da dominação reacionária do Kuomintang no Noroeste da China. O camarada Mao Tsetung cita aqui as duas cidades como símbolos da revolução e da contrarrevolução.

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