Entrevista do Século com o Presidente Gonzalo (Parte II)

Entrevista do Século com o Presidente Gonzalo (Parte II)

Nota do blog: A seguir, a parte II da Entrevista do Século realizada pelo jornal democrático peruano El Diario, em 1988. Nesta parte a entrevista concentra-se no tema Ideologia.

I – Questões de ideologia

El Diario: Presidente, agora falemos de uma das fundamentações ideológicas do PCP: o maoismo. Por que vocês consideram que o maoismo é a terceira etapa do marxismo?

Presidente Gonzalo: Este é um ponto de vista vital e de imensa transcendência. Para nós, o marxismo é um processo de desenvolvimento e este grandioso processo nos deu uma nova, terceira e superior etapa. Por que dizemos que estamos frente a uma nova, terceira e superior etapa, que é o maoismo? Dizemos isto porque vendo as três partes integrantes do marxismo é claramente evidente que o Presidente Mao Tsetung desenvolveu cada uma destas três partes. Assim, simplesmente para enumerar: na filosofia marxista ninguém pode negar seu grandioso desenvolvimento na dialética, centralmente na lei da contradição, estabelecendo que ela é a única lei fundamental; se vermos o problema da economia política, podemos dizer que neste campo basta destacar duas coisas: uma, para nós de importância imediata e concreta, a tese do capitalismo burocrático e, dois, o desenvolvimento da economia política do socialismo, pois, em síntese, poderíamos dizer que é ele quem realmente estabeleceu e desenvolveu a economia política do socialismo. Quanto ao socialismo científico, bastaria destacar a guerra popular, pois é com o Presidente Mao Tsetung que o proletariado internacional alcança uma teoria militar cabal, desenvolvida, e nos dá assim a teoria militar da classe, do proletariado, com aplicação em todas as partes. Acreditamos que estas três questões nos demonstram que há um desenvolvimento de caráter universal. Visto o problema desta maneira, então estamos frente a uma nova etapa e a chamamos terceira porque o marxismo tem duas etapas precedentes: a de Marx e a de Lenin, daí que falemos de marxismo-leninismo. No pertinente a superior, assim dizemos porque no maoismo a ideologia do proletariado universal alcança o mais alto desenvolvimento adquirido até hoje, seu mais alto cume, porém entendendo que o marxismo é uma – desculpem a reiteração – unidade dialética que dá grandes saltos e esses grandes saltos são os que geram etapas. Assim, para nós, o que existe no mundo hoje é marxismo-leninismo-maoismo, principalmente maoismo.

Consideramos que na atualidade ser marxistas, ser comunistas, nos exige necessariamente ser marxista-leninista-maoistas, principalmente maoistas; de outra maneira não poderíamos ser comunistas verdadeiros. Quero ainda destacar uma situação que é pouco levada em conta e que merece ser estudada a fundo na atualidade: refiro-me ao desenvolvimento que fez o Presidente Mao Tsetung da grande tese de Lênin sobre o imperialismo. Isto é de suma importância hoje e na perspectiva histórica na qual nos desenvolvemos. No mesmo plano, simplesmente enumerativo, poderíamos destacar o seguinte: o Presidente Mao estabeleceu a lei do imperialismo quando nos coloca que este cria distúrbios e fracassa para voltar a gerar distúrbios e fracassar, assim até sua ruína final. Também especificou que estamos em um momento dentro do processo de desenvolvimento do imperialismo, o que ele chamou “os próximos 50 a 100 anos” sem igual na Terra e nos quais, entendemos, varreremos o imperialismo e a reação da face do globo. Também nos determinou um período que não podemos esquivar hoje mais do que nunca, ele nos disse: “se abriu um período de luta contra o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo soviético”; ademais todos conhecemos sua grande tese estratégica de que “o imperialismo e todos os reacionários são tigres de papel”, tese de extraordinária importância e devemos ter muito presente que o Presidente Mao aplicou essa mesma tese ao imperialismo norte-americano e ao social-imperialismo soviético a quem não há que temer-se.

Porém também devemos insistir em que se tome em conta como conceber o desenvolvimento da guerra, seguindo precisamente o que Lenin defendera sobre a era de guerras que se havia aberto no mundo: o Presidente nos ensinou que um país, uma nação, um povo, ainda pequenos, se assim o forem, podem vencer ao mais poderoso explorador e dominante da Terra se atreverem-se a tomar as armas. Nos ensinou ademais como entender o processo da guerra e como não cair nunca sob a chantagem nuclear. Creio que essas são algumas questões que deveríamos ter em conta para compreender como o Presidente Mao Tsetung desenvolveu a grande tese de Lenin sobre o imperialismo. E, por que insisto nisso? Porque nós entendemos que assim como Lenin levanta-se sobre a grande obra de Marx, o desenvolvimento feito pelo Presidente Mao Tsetung levanta-se sobre a grandiosa obra de Marx e de Lenin, sobre o marxismo-leninismo. Não poderíamos nunca entender maoismo sem marxismo-leninismo. Consideramos que essas coisas são de muita importância hoje e para nós foi decisivo chegar a compreender na teoria e na prática o maoismo como uma terceira, nova e superior etapa.

El Diario: Presidente Gonzalo, você considera que se José Carlos Mariátegui estivesse vivo assumiria as contribuições e as teses do Presidente Mao?

Presidente Gonzalo: Em síntese, Mariátegui era marxista-leninista. E mais: nele, em Mariátegui, no fundador do Partido, encontramos teses similares às que o Presidente Mao estabeleceu no plano universal. Em consequência, para mim concretamente, Mariátegui seria hoje marxista-leninista-maoista; e isto não é especulação, é simplesmente produto da compreensão da vida e obra de José Carlos Mariátegui.

El Diario: Bom, passando a outra pergunta. O que é a ideologia do proletariado e qual papel cumpre nos processos sociais do mundo atual? Que significado têm os clássicos Marx, Lenin e Mao para o PCP?

Presidente Gonzalo: Hoje, amanhã e nestas tormentosas décadas que estamos vivendo, vemos a grandiosa importância e transcendência que tem a ideologia do proletariado. Primeiro – ainda que repisemos em coisas conhecidas – é a teoria e a prática da última classe da história, a ideologia do proletariado é o produto da luta do proletariado internacional; também encerra o estudo e a compreensão de todo o processo histórico da luta de classes antes do proletariado, da luta do campesinato, particularmente deste pelas grandes façanhas que travou, a compreensão e o estudo do mais alto que a ciência produziu.

Em síntese, a ideologia do proletariado, a grande criação de Marx, é a mais alta concepção que a Terra viu e verá. É a concepção, é a ideologia científica que pela primeira vez dotou os homens, a classe – principalmente – e os povos de um instrumento teórico e prático para transformar o mundo. E tudo o que ele previu vemos como vem se cumprindo. O marxismo vem se desenvolvendo, deveio [1] em marxismo-leninismo e hoje em marxismo-leninismo-maoismo e vemos como essa ideologia é a única capaz de transformar o mundo e fazer a revolução e de levar-nos à meta inabalável: o comunismo. Sua importância é extraordinária. Quero ressaltar de passagem isto: é ideologia, porém científica. Entretanto, deveríamos compreender muito bem que não podemos fazer concessão alguma às posições burguesas que querem reduzir a ideologia do proletariado a um simples método, pois, dessa maneira, ela é prostituída, é negada. Para nós a ideologia do proletariado – desculpem a insistência, porém o Presidente Mao disse “não basta dizer uma vez senão cem vezes, não basta dizer a poucos senão a muitos”, amparando-me nisto digo – a ideologia do proletariado, o marxismo-leninismo-maoismo e, hoje, principalmente o maoismo, é a única ideologia todopoderosa porque é verdadeira e os feitos históricos estão demonstrando-o. É produto, ao lado do dito anteriormente, do extraordinário labor de figuras históricas extraordinárias como Marx, Engels, Lenin, Stálin e o Presidente Mao Tsetung, para destacar notáveis cumes; porém entre eles ressaltamos três: Marx, Lenin e o Presidente Mao Tsetung como as três bandeiras que se concretizam, uma vez mais, em marxismo-leninismo-maoismo e principalmente maoismo. E nosso problema hoje qual é precisamente? É desfraldá-lo, defendê-lo e aplicá-lo e brigar esforçadamente servindo para que seja mando e guia da revolução mundial. Sem ideologia do proletariado não há revolução, sem ideologia do proletariado não há perspectiva para a classe e o povo, sem ideologia do proletariado não há comunismo.

El Diario: Falando de ideologia, por que Pensamento Gonzalo?

Presidente Gonzalo: O marxismo sempre nos ensinou que o problema está na aplicação da verdade universal. O Presidente Mao Tsetung foi sumamente insistente neste ponto. Se o marxismo-leninismo-maoismo não se aplica a uma realidade concreta não será possível dirigir uma revolução, não será possível transformar a velha ordem, nem destruí-la nem criar uma ordem nova. É a aplicação do marxismo-leninismo-maoismo à revolução peruana o que gerou o Pensamento Gonzalo, na luta de classes de nosso povo, do proletariado principalmente, das incessantes lutas do campesinato e no grande marco estremecedor da revolução mundial. É em meio a todo este fragor, aplicando da maneira mais fiel possível a verdade universal às condições concretas de nosso país, como se consolidou o Pensamento Gonzalo. Este foi antes denominado pensamento guia, e se hoje o Partido no Congresso sancionou Pensamento Gonzalo é porque se produziu um salto nesse pensamento guia, precisamente no desenvolvimento da Guerra Popular. Em síntese, o pensamento Gonzalo não é senão a aplicação do marxismo-leninismo-maoismo à nossa realidade concreta. Isto nos leva a que especificamente é principal para nosso Partido, para a guerra popular e para a revolução em nosso país, sublinho especificamente principal. Porém, para nós, vendo a ideologia em termos universais o principal é o maoismo reiterando-o uma vez mais.

El Diario: Como atua o revisionismo e como vocês o combatem?

Presidente Gonzalo: Primeiramente queremos recordar que o marxismo não deu um passo na vida senão em meio à luta; e nesse processo de desenvolvimento do marxismo, surgiu o velho revisionismo que se afundou na I Guerra Mundial. Porém logo nós, comunistas, confrntamos um novo revisionismo, o revisionismo contemporâneo que começou a desenvolver-se com Kruchov e seus sequazes e atualmente desata uma nova ofensiva contra o marxismo tendo como centros mais importantes a União Soviética e a China. O revisionismo insurgiu apregoando uma negação completa do marxismo, o revisionismo contemporâneo voltou a fazer o mesmo, como sempre apontando contra a filosofia marxista para substituí-la por uma filosofia burguesa; indo contra a economia política, particularmente para negar a pauperização crescente e a inevitabilidade do afundamento do imperialismo; esforçando-se por falsear e torcer o socialismo científico para opor-se à luta de classes e à revolução, apregoar o cretinismo parlamentar e o pacifismo. Todas essas situações foram desenvolvidas pelos revisionistas e assim apontaram e apontam para a restauração do capitalismo, para impedir e abalar a revolução mundial, para negar a invicta concepção da classe. Porém aqui merece precisar alguns pontos para concretizar: o revisionismo atua como qualquer imperialismo. Por exemplo a União Soviética, o social-imperialismo soviético predica e aplica o cretinismo parlamentar, monta e maneja ações armadas em função de conquistar hegemonia mundial, gera agressões, contrapõe povos contra povos, lança massas contra massas, divide a classe e o povo; o revisionismo soviético combate de mil e uma maneiras tudo o que é verdadeiramente marxista e serve à revolução. Nós somos um exemplo disso. Assim o social-imperialismo da URSS no mundo desenvolve um protervo plano para converter-se em superpotência hegemônica usando todos os meios a seu alcance, dentre os quais há que destacar a manutenção de falsos partidos comunistas de aparência, “partidos operários burgueses”, como dizia Engels. E de igual maneira atua o revisionismo chinês e todo o revisionismo, segundo suas condições e o bastão de mando que seguem. Assim, para nós, o problema é combater o revisionismo e combatê-lo implacavelmente. Há que recordar, nos foi ensinado que não se pode combater o imperialismo sem combater o revisionismo, e nosso Congresso diz há que combater o imperialismo, o revisionismo e a reação mundial inseparável e implacavelmente. Como combatê-lo? Em todos os planos, partindo dos três planos clássicos: no ideológico, no econômico e no político. Nos três planos temos que combatê-los. Se nós não cumpríssemos o combate o revisionismo não seríamos comunistas. Um comunista tem a obrigação de combater o revisionismo, incansável e implacavelmente. Nós o temos combatido. Sim, o temos combatido e desde seus começos; temos tido a sorte de poder contribuir aqui, em nosso país, a expulsá-lo do Partido no ano de 1964, realidade que sempre se quer ocultar. Deve ficar bem claro que a imensa maioria do Partido Comunista se uniu tomando as bandeiras da luta contra o revisionismo que o Presidente Mao Tsetung havia desfraldado. Que se apontou e se golpeou o revisionismo nas fileiras do Partido Comunista de então até expulsar Del Prado e sua pandilha. Daí até hoje seguimos combatendo o revisionismo e não somente aqui mas também no estrangeiro. O combatemos internacionalmente, combatemos o social-imperialismo soviético de Gorbachov, o revisionismo chinês desse protervo Teng Siao-ping, o revisionismo albanês de Ramiz Alia, esse seguidor do revisionista Hoxha; como combatemos a todos os revisionistas que seguem o bastão de mando do social-imperialismo ou do revisionismo albanês ou de quem for.

El Diario: Presidente. No caso peruano qual seria a expressão mais elevada do revisionismo? Refiro-me a seus expoentes.

Presidente Gonzalo: O chamado, como etiqueta, “Partido Comunista Peruano” – esse que publica ou publicava Unidad [Unidade], quinta coluna do revisionismo soviético, esse que encabeça o calejado revisionista Jorge Del Prado, a quem alguns consideram um “consagrado revolucionário”. E, em segundo lugar, Patria Roja [Pátria Vermelha], essa agência do revisionismo chinês com seus caudilhos adoradores de Teng.

El Diario: Você crê que a influência do revisionismo nas massas populares do país cria situações adversas para a revolução?

Presidente Gonzalo: Se tomamos em conta o que o próprio Lenin nos ensinou e o Presidente Mao voltou a reiterá-lo desenvolvendo-o, entendemos que o revisionismo é uma ofensiva da burguesia nas fileiras do proletariado e daí deriva o que cinde, divide o movimento comunista e os partidos comunistas; daí deriva o que cinde, divide o movimento sindical; cinde, divide o movimento popular. O revisionismo obviamente é um câncer, um câncer que tem que ser implacavelmente varrido, de outra forma não poderemos avançar na revolução. E recorde-se o que disse Lenin, sinteticamente: é necessário forjar em duas questões, ou seja, forjar na violência revolucionária e forjar na luta implacável contra o oportunismo, contra o revisionismo. Em nosso país creio que é preciso ver não somente esta questão para considerar a situação das massas. Há que ver também o problema do que Engels chamou o “colossal monte de lixo”, ele nos ensinou que um movimento que tem décadas, como o tem o movimento do proletariado em nosso país e mais ainda do povo em geral, gera lixo que tem que ir sendo varrido parte por parte. Isto também há que considerar; pensamos que é uma necessidade. Quanto pode influenciar nas massas? Nas massas o que fazem os revisionistas é servir à capitulação ante a reação interna, concretamente, ante a grande burguesia e os latifundiários, ante a ditadura latifundiário-burocrática que é o atual Estado peruano. Internacionalmente, capitulam ante o imperialismo e servem à hegemonia do social-imperialismo ou aos afãs de potências entre as quais hoje a atual China está desenvolvendo-se. Cremos que conforme a revolução, com a guerra popular, desenvolve-se, e conforme a luta de classes agudiza-se o povo e o proletariado vão compreendendo mais e mais cada vez. E, por outro lado, necessariamente, conforme veem atuarem os revisionistas e os oportunistas de toda laia traindo cada dia e os verão mais amanhã, terão o proletariado e o povo que cumprir com sua missão de varrê-los de todos os rincões, porque lamentavelmente não se pode acabar de uma só vez com eles, segundo nos ensinou Engels, pois são parte do “colossal monte de lixo”.

El Diario: Você consideraria que o revisionismo está sendo derrotado no país definitivamente?

Presidente Gonzalo: Reiterando o ensinado pelos fundadores do marxismo: conforme eles atuam participando no Estado reacionário, as massas compreenderão seu trabalho nefasto; conforme os veem atuar, conforme todo o povo e a classe os veem atuar não podem menos que ir compreendendo cada vez mais seu nocivo papel, sua condição de traficantes, de vende-operários, de oportunistas e traidores. O revisionismo já começou a perder a partida faz um bom tempo, não é só com a Guerra Popular; o revisionismo já começou a perder a partida quando foi expulso das fileiras do Partido, porque aí começou a formar-se uma outra fornada de consequentes comunistas que são os que depois deviram nestes que hoje, sob o Partido Comunista do Peru, dirigem a Guerra Popular. E, pensamos que as massas, com esse instinto de classe do qual falava Mariátegui, cada vez mais rápido compreenderão como já estão compreendendo. O revisionismo já perdeu a partida, o resto é tempo; o problema está definido, o lixo já começou a ser varrido, incendiado; reitero, o problema é tempo. Já começaram a perder a partida há muitos anos. E se fôssemos mais além, aos princípios, perderam a partida desde que se converteram em revisionistas, pois a partida se perde desde quando os princípios são abandonados, a partir daí. O resto é como a luta de classes desenvolve-se e como um Partido como o nosso é capaz de cumprir seu papel e como as massas o sustentam, o apoiam e levam adiante, como vão compreendendo que é seu Partido, que defende seus interesses. E são as próprias massas as que darão boa conta e justa sanção aos que por decênios têm traficado e seguem traficando, e também condenarão os que queiram traficar ou os que comecem a fazê-lo.

El Diario: Qual a sua opinião sobre a Nova Evangelização defendida pelo Papa?

Presidente Gonzalo: Marx nos ensinou “a religião é o ópio do povo”, é uma tese marxista plenamente válida hoje e amanhã seguirá sendo. A religião é um fenômeno social produto da exploração e irá extinguindo-se, conforme a exploração for sendo varrida e uma nova sociedade surgindo. Estes são princípios que não podemos desprezar e que devemos ter sempre presentes. Ligado ao anterior está recordar também que o povo tem religiosidade, o que jamais foi e nem será obstáculo para que ele lute por seus profundos interesses de classe servindo à revolução e, concretamente, à guerra popular. Deve ficar sumamente claro que essa religiosidade é por nós respeitada como um problema de liberdade de consciência religiosa, como reconhece o programa sancionado pelo Congresso. Assim que a questão colocada [sobre a estrutura da igreja] tem a ver, em nosso juízo, com a hierarquia eclesiástica, com o Papado, com essa velha teocracia. Essa velha teocracia soube organizar-se e devir em um poderoso instrumento já na época romana, depois ajustar-se às condições da feudalidade e adquire um imenso poder, maior ainda. Em cada circunstância sofreou a luta popular e defendeu os interesses dos opressores e exploradores, ideologicamente como um escudo reacionário, para depois de mudadas as condições adaptar-se à nova situação. Isto podemos ver claramente se pensamos na relação entre a Igreja e a revolução burguesa, a velha revolução burguesa, refiro-me à da França por exemplo. A igreja defendeu tenazmente a feudalidade, depois, através de muitas contendas e depois da feudalidade ter sido derrotada – reitero: através de muitas contendas –, a igreja foi-se ajustando à ordem burguesa e outra vez passou a ser um instrumento a serviço dos novos exploradores e opressores.

Na situação atual então o que vemos? Há uma perspectiva histórica irrefreável, a revolução proletária mundial, a nova era iniciada em 1917; é o problema de como o proletariado dirige revoluções para mudar a ordem caduca e gerar uma nova e verdadeira sociedade, o comunismo. Pois bem, frente a isto, como atua a Igreja? Atua com a experiência anterior: quer buscar sobreviver. Daí a celebração do Concílio Vaticano II onde a Igreja busca condições que lhe permitam, primeiro, defender a velha ordem como sempre o fez e, depois, ajustar-se e acomodar-se para servir a novos exploradores, para seguir sobrevivendo. Isso é o que busca e isso é, em essência, o Vaticano II.

O problema da “nova evangelização” refere-se expressamente a como veem os hierarcas eclesiásticos, o Papado concretamente, o papel da América Latina. Como eles mesmos dizem, a metade dos católicos do mundo estão na América Latina – assim dizia já o atual Papa no ano de 1984. Em consequência, estão buscando utilizar o meio milênio do descobrimento da América para levar adiante um chamado movimento de “nova evangelização”. Em síntese o que eles pensam é isto: com o descobrimento da América iniciou-se a evangelização no ano de 1494, oficialmente. Pois bem, ao cumprir-se este novo centenário querem desenvolver uma “nova evangelização” em função de defender o bastão, a metade de sua paróquia, a metade do bastão que sustenta seu poder, isso é o que buscam. Assim, os hierarcas, o Papado apontam para defender suas posições na América e servir ao imperialismo norte-americano que é quem domina principalmente na América Latina. Porém é necessário entender este plano dentro de uma campanha e um plano mundiais, ligado às relações com a União Soviética por motivo do milênio de sua cristianização, ou os vínculos com o revisionismo chinês, as ações da Igreja na Polônia, na Ucrânia, etc.. É um plano mundial, dentro disso joga a “nova evangelização”. Pretendem, como sempre, defender a ordem social existente, ser seu escudo ideológico porque a ideologia da reação, a ideologia do imperialismo caducou e, depois, acomodar-se e seguir sobrevivendo. Mas a perspectiva será diferente, não como foi antes, se seguirá a lei que Marx estabeleceu: a religião irá se dissolvendo conforme for sendo destruída e dissolvida a exploração e a opressão, e como eles servem às classes exploradoras – e a classe que dominará não é uma classe exploradora – então o Papado não poderá sobreviver, e a religiosidade terá que ir-se dissolvendo. Entretanto, há que reconhecer a liberdade de consciência religiosa até que os homens, avançando em novas condições objetivas, possam ter uma consciência clara, científica e transformadora do mundo.

Para nós, em consequência, teria que ver, em síntese, a “nova evangelização” dentro desse plano da Igreja por sobreviver nas novas condições de uma transformação que sabe que vem necessariamente.

El Diario: De acordo com a definição que você faz, Presidente, poderia concluir-se – ou você poderia apontar isto – de que as contínuas visitas do Papa ao país têm alguma relação com a guerra popular e o apoio que este estaria dando ao regime de García Pérez?

Presidente Gonzalo: Eu creio que é correto, realmente é assim. Generalizando, suas visitas à América têm a ver com a importância que a América Latina tem e suas visitas ao Peru têm a ver até, inclusive, em pressionar-nos a depor as armas, uma vez que bendiz as armas genocidas, como o fez em reiteradas ocasiões, nas duas vezes que veio ao Peru.

El Diario: Agora, Presidente, qual seria a atitude do PCP em relação à teocracia religiosa quando este Partido assumir o Poder do Estado no país?

Presidente Gonzalo: O marxismo nos ensinou separar Igreja de Estado, é o primeiro que faremos; e, em segundo lugar, reitero, o que fazemos é respeitar a liberdade de consciência religiosa das pessoas, aplicando o princípio plenamente: a liberdade de crer como também a liberdade de não crer, a de ser ateu. Dessa maneira.

Nota

[1] Vir a ser; tornar-se; devenir [Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa]

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